• 2 de abril de 2012

    Perdoar-se

    – Então Akim, eu me sinto culpada por isso. Eu tinha que trabalhar sabe? E com isso acho que não dei tanto afeto para os meus filhos quanto deveria.

    – Claro que entendo. Mas e hoje? Hoje você pode dar mais afeto à eles?

    – Hoje eu posso, posso  e dou!

    – Maravilha. Eles te culpam pelo que você fez?

    – Não! Eles na verdade dizem que sentiam minha falta, mas que sabiam que era eu quem trazia o dinheiro para casa.

    – Ótimo, que bom que eles entendem!

    – Sim, eles são ótimos!

    – Então, me diga se eu estou entendendo: você tinha que trazer o dinheiro para casa, deu, na medida do possível afeto para eles de forma que eles, hoje reconhecem tudo o que você fez e não a culpam por isso. De modo que a única questão que fica, ao que me parece, é que você queria ter passado mais tempo com eles naquela época. Estou certo?

    – … sim, é isso mesmo.

    – Que bom que puder te entender. Posso dar uma sugestão?

    – Pode.

    – Infelizmente não temos como mandar você de volta para o passado para você poder passar mais tempo com eles naquela época.

    – É… verdade…

    – Então que tal buscarmos aceitar que o que passou, passou?

    – Mas eu queria tanto…

    – Eu entendo, de verdade. Não foi possível. Aceitar isso vai te ajudar a parar de brigar com isso, o tempo com eles que você pode ter é somente agora, que tal relembrar dos velhos tempos e dos “poucos” momentos que você passou junto com eles? Perguntar sobre os momentos que você gostaria de ter passado junto com eles e não pode?

    – É… talvez isso ajude um pouco.

    – Perfeito, não vai ser a solução “perfeita” porque nesse caso não há como tê-la, mas é uma solução que vai ajudar com certeza!

    – É, vou fazer isso… já que não pude naquela época, vou fazer agora né?

    – Isso! E deixar o passado ir embora

    Perdoar-se é olhar para um ato do passado e absorver dele aprendizados importantes e retirar dele o afeto pesado da culpa, substituindo pela aceitação do que ocorreu e a decepção no sentido de não ser mais possível mudar o passado.

    Geralmente não nos perdoamos enquanto ficamos brigando com o passado desejando mudá-lo. É uma luta impossível pois nada poderá mudar o que já foi feito temos controle apenas sobre nossos atos no presente que é onde devemos focar fazendo as perguntas: é possível retribuir o mal que causei? Se não é possível retribuir totalmente, é possível diminuí-lo? O que devo aprender para nunca mais ter essa reação no futuro? Esses são os elementos para lidar com a culpa.

    Já a parte da aceitação vem quando conseguimos nos colocar de uma forma passiva frente à situação (não é mais possível desfazer o que foi feito) e entendemos que o que fizemos foi uma parte de nossa história, a melhor escolha possível para nós naquele momento (mesmo que tenha causado dor) aceitando e lidando com as conseqüências do que foi feito ao invés de lutar contra essas conseqüências.

    Finalmente podemos nos entender enquanto seres humanos, falíveis e imperfeitos por definição. Criando dentro de nós uma identificação com uma pessoa que está aprendendo a viver a cada dia, com cada falha e com cada acerto e que isso faz parte do nosso desenvolvimento.

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