• 31 de maio de 2017

Amores cegos

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– Não acredito que você está me dizendo isso… você quer que eu abandone ele?

– Não… eu não quero nada.

– Então porque me diz “ele tem que enfrentar o que fez”?

– Porque é um fato: não há ação sem consequência.

– Isso é física, a física nem sempre está certa.

– Então talvez você deva poupá-lo disso.

– Claro que sim! Quer que o deixe se ferrar?

– Como eu disse: não quero nada. Apenas estou dizendo que algo vai ocorrer… talvez você não goste disso, mas algo vai ocorrer.

– Eu não vou deixar.

– Então algo não vai chegar até seu filho. Mas essa falta também é algo que vai ocorrer. E ele vai colher isso.

– Melhor isso que ele se ferrar.

 

É verdade dizer que muito é feito em nome do amor. Porém, dizer que este “muito” é sempre saudável ou desejável é outra história. Nem sempre aquilo que é feito em nome do amor é algo bom. Aceitar isso é o que pode nos ajudar a viver o amor de maneira realista e saudável.

Qual o problema com o que se chama de “amor cego”? Simples: ele não está ligado na realidade. Quando digo isso, um romântico de plantão poderá desejar questionar: o que é a realidade? Ou até que ponto aquilo que queremos não pode ser tornar real? São perguntas boas e desafiadoras, porém, elas não retiram a questão da realidade de vista. Essas duas perguntas são, na verdade, os argumentos mais comuns daqueles que possuem um amor cego, então, vamos à elas.

Ao questionar “o que é a realidade?” o amor cego busca mostrar que o mundo não é tal como é, que ele pode ser diferente. Assim sendo cria-se a ilusão de que aquilo que a pessoa quer pode se realizar porque o mundo não é “tão concreto assim”, como me disse um cliente, certa vez. Inicialmente começamos distinguindo aquilo que a pessoa deseja daquilo que o mundo está oferecendo. O amor cego confunde a “realidade” com o “desejo” da pessoa e toma um pelo outro.

Esta atitude faz com que a pessoa jamais abandone aquilo que quer mesmo que seja algo inadequado para ela ou irrealista. São as pessoas que se tornam obcecadas com uma ideia, seja ela qual for: alguém me ama e não sabe, ele (a/s) (filhos, esposa, marido, família) vai (vão) mudar, as pessoas vão aprender a gostar disso. A questão sempre recai no ponto acima: distinguir o desejo da pessoa daquilo que ela de fato vê e vive.

O desafio para o amor cego em relação à este ponto é abrir mão do desejo tal como ele é. Muitas vezes aquilo que queremos é muito belo, porém, não é o que o outro quer ou não é algo executável no mundo. Então é importante saber fazer esta distinção para adequar o desejo e amar de maneira proporcional ao que é possível. O amor cego não vê limites, o amor maduro vê e os respeita. E, afinal de contas, respeito é a base do amor e só podemos respeitar o outro quando o vemos como ele é e não como queremos que ele seja.

A onipotência é o desafio da outra frase: “aquilo que queremos pode se tornar real”. Quando temos um amor cego, esta frase é melhor escrita assim: “o que eu quero vai se tornar realidade”. Não há espaço para acordos ou mudanças, não há um “estudo de viabilidade”, a pessoa está tão convicta de que o seu desejo vai acontecer que ela nem pensa em outras alternativas. Esta é a prisão da onipotência.

Porque a onipotência prende? Porque ninguém é onipotente. Porém ao se crer dessa forma a pessoa se pune cada vez que percebe que a realidade “saiu diferente” do se desejo. Ela percebe esta realidade diferente como uma falha pessoal e não como uma realidade. Então ela começa a buscar novas formas de executar o que não é executável ou frustra-se e fica abatida.

A onipotência também faz com que a pessoa crie metas inadequadas. Ela não se importa, por exemplo, com aquilo que as pessoas querem, ela só percebe o que ela vê como adequado para elas. E se põe à serviço disso. Mantém uma imagem rígida de como tudo deve ser em mente e a segue o tempo todo. Como ela se percebe capaz de executar tudo, ela se cobra o tempo todo. Ela também pode cobrar os outros o que, geralmente, causa grandes problemas nas famílias e relações.

Aceitar a realidade e os nossos limites assim como os limites da realidade é o que nos abre à um amor que enxerga. Não se força a barra, não se cria ilusões com base em desejos puramente pessoais, não se deixa enganar e nem escravizar por ilusões de grandeza e onipotência. Se lida com o que há. Isso, talvez seja o mais difícil de fazer, mas também o mais humano e é nesse campo – do humano – que o amor pode ocorrer.

Abraço

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