• 2 de junho de 2017

O amor que liberta

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– Eu odeio ele.

– Eu sei, eu sei… seu pai encerra em você grandes mágoas.

– Sim.

– Essas mágoas existem porque ele é do jeito que é, não é mesmo?

– Sim é bem isso… se ele…

– Fosse diferente? Ou fosse como você acha que ele deveria ter sido… para “o bem de todos”?

– É…

– Então ele não teria sido seu pai e você não o teria amado, pois teria visto nele outros defeitos.

– Eu sei, mas mesmo assim é difícil.

– A parte mais difícil é deixar de lado o desejo de mudar a história que você já teve…

– É… (chora)

– Porém abrir mão dela significa que você poderá usar suas mãos para criar uma nova… me parece uma boa troca.

 

O amor que liberta não é fácil de ser adquirido. É necessário certo esforço para que deixemos as ilusões de lado. Porém, mais que isso é importante saber para onde olhar. O foco é o futuro.

Porque o futuro? Simples, pois é para lá que vamos. Os atos de amor que nos fazem olhar para o passado nos prendem à algo que já não existe mais. O amor que nos prende apenas às coisas boas do presente nos faz prisioneiros do prazer e restringe a relação à isso. O futuro sem ilusões de grandeza se torna algo passível de construção e esse amor é o que nos liberta para sermos aquilo que podemos ser.

Livrar-se das ilusões é um passo difícil, pois elas nos fazem muito fortes e poderosos. No campo do pensamento podemos ser muitas coisas e essas fantasias nos fazem sentir bem. Porém elas deixam o nosso campo de ação muito limitado, pois precisam de muita energia para realmente acontecerem o que quase sempre não ocorre porque as fantasias não tem um pé no real.

Abrir mão dessas fantasias é abrir mão de nossas arrogâncias, onipotências e pretensões. “Vai ser assim”, “tem que ser desse jeito” essas e outras frases tem a ver com essas arrogâncias. Tornar-se adulto é aprender a lidar com uma realidade que nunca pensamos que teríamos que lidar. O adulto é capaz de se desapegar das fantasias e olhar para o real, assim sendo, restringe o campo de seus pensamentos porém amplia o campo de suas ações. Esta inversão é o que liberta. Trata-se de uma pessoa que não arroga muito, não faz “grandes sonhos”, porém realiza muito, torna-se muito mais real e humana do que os grandes idealizadores.

Aplicando isso ao amor a questão é olhar para o futuro de uma maneira que ele pode ser construído. Nos libertamos quando deixamos de lado as ilusões que temos do outro, do amor e do que é relacionar-se e passamos a ver o que está diante de nós. Acompanhei muitas pessoas no consultório que lutaram contra a realidade muito tempo e que, ao render-se à ela tornaram-se pacíficos e plenamente felizes. Não se trata de resignar-se e aceitar algo menor do que você poderia ter, mas de aceitar a realidade.

É incrível quanto as pessoas buscam em terapia o “auto conhecimento”. Porém quando “conhecem” algo que não esperavam vão embora da terapia. Ora, a frase é: “quero me conhecer, desde que aquilo que será descoberto seja igual ao que eu espero”. Essa não é a atitude de quem quer se conhecer. O mesmo vale para o amor. Se já sabemos como a relação deve ser, não precisamos de um outro. Poderíamos contratar um ator, lhe passar a forma como ele deve proceder e viver nossas vidas (muitas pessoas adorariam essa ideia).

Se o que você quer é realmente “criar” uma relação com alguém, não pode saber como será. Como poderia? Pode ter seus desejos e necessidades e, ao colocá-las na mesa, verificar o que o outro pensa sobre elas. Este amor liberta porque ele não fica rígido nas ideias, ele vai para a prática. Não precisa provar ou aprovar seu “plano mestre”, mas sim, criar uma experiência. Por este motivo o foco é o futuro e a falta de ilusões.

É o futuro que se constrói com o amor, não o passado. Quem está em uma relação olhando para trás não está criando nada, apenas foge do que já foi. Um amor que nos liberta tem esta temática de “amor simples”, no sentido que não cria grandes explicações ou teorias sobre si, apenas vive com aquilo que há, buscando aquilo que se deseja e necessita.

O amor, assim como toda a evolução humana ainda está alicerçado sobre uma causa muito simples e quase sempre esquecida: sobreviver. O amor versa sobre a vida e a morte. Amar nos ensina a morrer, pois ao chegarmos no amor, começamos a criar a próxima vida, aquela que irá nos substituir quando formos. Assim sendo o amor também nos traz grande medo. Vencer este medo é prestar atenção no que há. E se o que você estiver fazendo lhe trouxer a liberdade para ser apenas o que você é e o outro sentir o mesmo, você saberá que está fazendo a coisa “certa”.

Abraço

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