• 9 de junho de 2017

    Qual é o meu valor?

    céu.texto.marcio

    – E para que eu sirvo então?

    – Não sei, para que?

    – Agora não sei mais… eu entendi, de verdade que meus filhos não vão mais ficar atrás de mim o tempo todo e  que isso é bom, mas… mas e eu?

    – Essa é uma boa pergunta. Até então o seu valor era como pai que poderia prover algo aos filho, eles dependiam de você para algo. Agora eles ganham o próprio dinheiro e seu papel de pai provedor não é mais necessário.

    – Sim.

    – A pergunta que você se faz “para que eu sirvo?” é muito boa. Servir é uma palavra que denota função. Qual a sua função na sua própria vida?

    – Hum… boa pergunta… não havia pensado nisso.

     

    Em geral, as pessoas se perguntam sobre o seu valor quando não sabem qual é ele. É na falta que nasce a perspectiva de valor pessoal. O mesmo vale para o sentido da vida, ele só se torna questão quando não está definido. Como definir esses elementos tão subjetivos?

    O primeiro ponto é refletir sobre a falta. O que motiva a percepção de que você não tem valor ou que coloca em cheque o valor que você pensava ter? Uma pessoa no início de profissão pode achar que não tem valor porque tem pouca experiência, enquanto uma pessoa prestes a se aposentar acredita que “seu tempo já acabou”. “A força nasce da fraqueza”, com esta premissa em mente é que a reflexão sobre o motivo da falta de valor se faz importante.

    Outro motivo que torna esta reflexão necessária é que, muitas vezes as pessoas tem alta permissividade sobre assuntos que tocam suas emoções. Explico: a pessoa prestes a se aposentar, está refletindo sobre sua noção de valor profissional. É uma esfera bem definida. Porém ao colocar este valor em risco, ela pode também achar que seu tempo enquanto ser humano já acabou. Uma questão de nível profissional se expande para o pessoal. É importante tomar cuidado com isso e compreender que cada área pode ter respostas diferentes.

    Quando o que falta é uma percepção de valor pessoal, ou seja, sobre o “eu”, precisamos compreender melhor quem este “eu” pensa que é e/ou deveria ser. É diferente perguntar: “porque você não sente seu valor pessoal?” de “quem você seria se fosse alguém de valor?”. O “eu” nada mais é que uma construção. Nesse sentido pouco importa o que é construído, mas sim a noção de valor que se tem desta construção. Ao perguntar: “quem você seria se fosse alguém d valor estamos buscando pelo que a pessoa valoriza.

    Se ela diz que seria alguém de valor caso fosse famosa como um Big Brother é diferente de afirmar que ela desejava ter contribuído à uma causa social, como ajudar os haitianos e ainda é diferente de ela dizer que se sentiria valorizada se tivesse descoberto a cura de alguma doença ou criado algum dispositivo de importância prática. Compreender o que, na nossa percepção, nos faria alguém de valor é entender aquilo que acreditamos que nos falta. É sempre importante questionar a falta, pois, muitas vezes ela nada mais é que uma falha de percepção.

    De outro lado, ao compreender a falta, podemos ampliar o sentido daquilo que nos falta. Ao aprofundar a noção daquilo que nos falta, podemos perceber mais formas de conquistar o nosso valor. Então, quem deseja contribuir para uma causa social, mas não pode sair de seu emprego, pode, talvez realizar pequenos atos de ajuda aos necessitados mais próximos, ou realizar atos maiores esporadicamente. Não se trata de “compensar” como muitos acreditam, mas sim de compreender, de fato, o que me faz sentir como alguém de valor.

    Isso porque o valor se dá por uma soma da avaliação daquilo que fazemos e da realização dessas coisas. Em outras palavras não basta apenas achar que algo é digno de valor, é importante agir. A ação sozinha se torna uma fábrica de reprodução, a exaltação de determinadas características por si só se torna uma “viagem” metafísica sobre a noção de valor. Então a ação nos leva a realizar (tornar real) aquilo que cremos ter valor e a avaliação disso é o que nos faz dar valor ao que fizemos. Esses dois elementos nos levam à percepção do nosso valor pessoal.

     

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