• 26 de junho de 2017

A dor da felicidade

faith (2)

– Mas eu não posso dizer para eles que não vou ficar lá.

– O que te impede?

– Eu acho que eles vão ficar brabos comigo.

– Pode ser.

– Então… por isso não vou falar.

– A outra opção é fingir que para você vai ser bom ficar lá.

– Aí, é tão difícil…

– Sim, principalmente porque você sabe que vai se sentir melhor em não ficar com eles.

– É… é verdade.

– Como você se sente em dizer à eles: “eu fico melhor aqui, longe de vocês?”

– É muito ruim porque é como se eu estivesse dizendo que a distância me faz bem.

– Não é “como se”, é exatamente isso o que você está afirmando.

 

Muitas vezes, nossa felicidade implica, diretamente, na infelicidade do outro. É muito dura a decisão de manter aquilo que lhe faz feliz nessas circunstâncias. É necessário coragem e uma boa dose de auto conhecimento.

Temos uma visão infantil sobre a felicidade em nossa sociedade. Nesta visão, tudo o que precisamos fazer é correr atrás dela e tudo será sempre lindo e maravilhoso. Sem dores, sem provações, sem esforço. Praticamente é uma ida ao supermercado para pegar o tipo de felicidade mais adequada ao nosso impulso do momento. Esta visão, porém, traz muita confusão sobre o que é felicidade e, obviamente, não ajuda ninguém a ser feliz.

Um dos temas quase nunca explorados por esta vertente da cultura é o tema de que a felicidade de um pode significar a infelicidade do outro. Não se fala isso, acreditamos que se uma pessoa buscar sua felicidade, todos ficarão felizes com isso. Nem sempre é assim. Em um divórcio, no qual uma das pessoas deseja sair e a outra não. A felicidade de um é a tristeza do outro. Quando um filho sai de casa ou quando um casal decide por coisas distintas a felicidade de um pode significar a tristeza do outro.

Dizer isso, no entanto requer uma percepção apurada da situação. A cultura irá lhe dizer: não desista da sua felicidade e ponto. Não é bem assim também. O fato é que, em geral, nos importamos com as pessoas com as quais cultivamos relações. Assim sendo desejamos vê-las felizes e a tristeza dela nos afeta. O fato é que em boa parte dos casos não há como negar a tristeza alheia como algo que nos comove. Porém, assumir isso é o que poderá nos trazer força real.

A cultura vai lhe dizer para ignorar. Porém o que vejo em consultório é que mesmo quando a pessoa quer ignorar, ela já está sentindo a tristeza. Não é algo que simplesmente se escolhe. Assumir nos traz força porque ao assumirmos a tristeza que a dor do outro nos causa, também afirmamos nosso amor por eles. O amor fortalece, embora as pessoas acreditem que não.

Porém, o amor que fortalece é aquele que busca pela maturidade da forma de amar. Aquele que busca por compensações, tende a enfraquecer. O ponto fundamental de quando nossa felicidade significa a dor do outro é deixar claro o conflito evidente. No caso acima, o problema da pessoa era afirmar que ela se sentia melhor ficando em um hotel do que como hóspede na casa de seus parentes. Ela preferia decidir só aquilo que desejava fazer e encontrar-se com sua família quando pretende-se. A solidão do hotel, lhe trazia mais felicidade do que a companhia da família o tempo todo.

Obviamente isso ia contra os princípios da família, porém, apenas ao deixar isso evidente é que ela poderia assumir uma forma mais madura do seu amor por eles. As pessoas possuem diferentes formas de amar. Enquanto isso não pode ser assumido, busca-se por compensações que não ajudam nenhum dos lados. Quando a diferença é assumida, isso pode trazer dor, mas junto com a dor vem a libertação e a realidade.

Esse é o grande tema: buscar uma maneira real de amar. Se isso não for possível, a realidade é perdida de foco e as pessoas passam a agir dentro de ideias pre concebidas que podem ou não ser úteis. Para aguentar a dor do outro é necessário sentir a realidade. Ela é a maneira de amar que fortalece junto com o dor. Notem que eu escrevi “junto com” e não “apesar da”. Na situação acima, é importante sentir que é triste não partilhar dos mesmos hábitos familiares, pois perde-se com isso. Ao mesmo tempo em que sentimo-nos felizes por amar do nosso jeito.

Poder dizer sim à dor e à felicidade é o que nossa cultura nunca vai lhe dizer que é possível. Mas isso é, em muitos casos, a única realidade possível. Assumir aquilo que é real, além de uma prova de maturidade é a maneira mais rápida de conseguir aquilo que queremos. Viver em fantasias é muito belo, porém, nada real. Viver no real e lidar com seus limites é o mais importante, pois é somente nisso que se pode construir algo verdadeiramente concreto.

Abraço

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