• 14 de julho de 2017

O ser do discurso e o ser da ação

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– Mas Akim!! Como é que você não entende?

– Eu entendo você. Entendo e digo: concordo com o que você está falando.

– Então? Como é que você pode me falar que eu deveria mudar a minha atitude se ele está errado?

– É que o fato de ele estar errado é irrelevante.

– Irrelevante? Irrelevante? Como assim? Ele está sendo machista e agressivo ainda.

– Sim, concordo.

– Então porque é que eu devo mudar a minha atitude?

– Porque não me parece que ele está ligando muito para o seu discurso está? E nem que vai ligar…

(silêncio)

– Eu concordo com você e é por isso que estou orientando você dessa forma. Você está “pedindo” para ele te respeitar… isso não vai acontecer dessa forma, não aconteceu até agora, porque vai ocorrer agora? Só por causa de um punhado de ideias?

– Mas e o que eu faço?

– Torne essas ideias uma nova forma de se ver, se respeitar e se relacionar, até para ver se, no fim, você quer continuar com ele… uma pessoa que segundo você mesma: te desrespeita.

 

Hoje em dia, onde tudo se torna uma bandeira política, é comum que as pessoas queiram, através do discurso, convencer alguém. O fato, no entanto, é que os seres humanos reagem muito mais à forma com a qual algo é comunicado do que ao conteúdo, e é aí que reside o “mistério” das relações humanas.

Como vivemos em um momento em que as pessoas acham que sua opinião conta muito, uma atitude que se torna cada vez mais comum é “falar para o outro”. Acreditamos que “basta falar” e pronto, tudo se resolverá: as pessoas vão deixar suas opiniões de lado, seus comportamentos e vão rever o mundo e sua própria vida de acordo com as coisas que você disse para ela. Isso não existe. É, no mínimo, uma bela fantasia infantil na qual o “poder da palavra” assume proporções homéricas.

As relações humanas e boa parte do que carregamos até hoje em nossos genes sobre o que é se relacionar se formaram em um momento da história em que não havia palavra. Não haviam discursos ou palavras escritas, muito menos mensagem de whats. Era “olho no olho”. É assim que as relações humanas funcionam ainda hoje, quer gostemos disso ou não. É na interação que as coisas ocorrem e não em um discurso distante.

Isso não é uma premissa minha, Watzlavick em seu livro Pragmática da comunicação humana já aborda o tema e coloca isso como um “axioma” da comunicação humana, na qual aquilo que é comunicado possui forma e estrutura e a natureza da comunicação entre duas pessoas depende desta forma e da maneira pela qual ela é empregue. O conteúdo pode ser muito bom, mas é a forma que vai definir a natureza da comunicação.

Na prática, por exemplo, isso significa que quando uma pessoa “pede” para ser respeitada, ela se coloca “abaixo”. Ela não tem o respeito e está pedindo por ele. É duro dizer isso, mas ela se coloca como pedinte. O resultado, em geral, não dá certo, ela não recebe o que pede. Se, por outro lado, a pessoa desenvolve respeito próprio e mostra que se respeita na relação, a estrutura muda. Ela é possuidora de respeito, assim como o outro e não precisa mais “pedir”, nem “impor” (afinal o respeito é dela para com ela, não faz sentido “impôr), o que ocorre é que ela usa os limites que se dá e, com isso, modifica a estrutura da relação.

Onde, antes a pessoa pediria, agora ela se posiciona. Esta é a diferença que faz a diferença. É a atitude que re-estrutura relações humanas. Tornar discursos em atitudes é uma das tarefas mais complexas para a mente humana porque não somos habituados com isso. Nossa história nos levou no caminho contrário. Das atitudes nasciam as ideias.

Particularmente sou um pouco romântico no sentido de crer que nosso corpo nos traz boas respostas sobre como nos relacionar, mas não sabemos ouvi-lo. Em geral, quando trabalho com pessoas abusadas e nos colocamos em um role play, por exemplo, o corpo dela sabe a atitude que vai lhe fazer bem. Quando incentivo, sem expectativas, que a pessoa faça um movimento em direção aquilo que lhe traz saúde ela o faz. Por vezes demora, em outros casos, ela não sabe como lidar com as consequências ou sente-se com vergonha, medo ou culpa, mas o corpo lhe diz: faça isso.

Confiar nessa base não é jogar fora aquilo que a cultura nos traz. Pelo contrário, quando vejo essas atitudes nascidas do corpo vejo como elas corroboram e até mesmo vão além de muito o que nossa cultura nos fala. O corpo, aprendeu a sobreviver ao longo de milhões de anos de evolução, nossas células trazem em si a certeza da morte. O corpo conhece muitos caminhos se o permitirmos falar, ele poderá nos mostrar vários deles.

Abraço

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