• 31 de outubro de 2018

    O medo do “sentimento que volta”

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    – Eu tento, mas não consigo lidar com isso.

    – Você, na verdade, tenta negar essa situação, o que te motiva a fazer isso?

    – Ah, eu fico com medo de ir lá, ver eles e daí aquilo tudo voltar sabe?

    – “Aquilo tudo” o que?

    – Ah, tudo o que eu sentia na época que terminamos.

    – Hum, de que emoções você está falando?

    – Vergonha, raiva, tristeza… não quero que isso volte.

    – É… emoções não “voltam”, elas sempre estão aqui. A pergunta é: você ainda vê aquela situação da mesma forma?

    – Sim.

    – Então vai sentir da mesma maneira, mas não é algo que “volta”, entende?

    – Sim…

     

    Emoções não são um vírus que vem e depois “passa”. Elas são respostas orgânicas que estão em nós sempre prontas para serem usadas. A questão é que muitas pessoas temem determinadas emoções e não querem senti-las, muito embora não se atentem para o fato mais importante sobre emoções: elas não são causas, são respostas.

    Desta maneira, o que é sentido diante de um determinado estímulo, seja ele interno ou externo, está profundamente associado ao que pensamos sobre a situação, nossa forma de representá-la. Se a maneira pela qual represento determinada situação se mantém, é provável que eu sinta a mesma emoção – até na mesma intensidade – que senti da primeira vez que vivi a experiência. Obviamente, isso não tem a ver apenas com o estímulo em si, mas também com a pessoa, ou seja a maneira pela qual a pessoa percebe a si e suas competências influencia diretamente a maneira pela qual ela vivenciará os estímulos.

    Portanto não são os “sentimentos que voltam”, mas sim a nossa percepção sobre o estímulo que não mudou. Se ela não muda vou sentir a mesma coisa. A solução para este tipo de questão não está em “não sentir”, “tentar ignorar”, “passar por cima”, mas sim, em olhar para o estímulo, situação, olhar para si nesta situação e compreender: o que me faz sentir da maneira que me sinto? Se me vejo frágil diante de um ex, como no exemplo acima, de nada adianta brigar contra a emoção, mas sim compreender: o que me faz sentir-me frágil diante dessa pessoa?

    A partir disso é que se torna possível mudar aquilo que sentimos. A tentativa de mudar o sentimento de forma direta é muito infrutífera, em geral, o melhor que se consegue é mudar um pouco a intensidade da emoção através de exercícios de relaxamento, muito difícil mudar a emoção em si de forma direta. O que realmente nos ajuda é mudar a compreensão do contexto, aprimorar nossas respostas em relação à situação e nossa compreensão de nós mesmos ou de nós naquela situação.

    Estas mudanças alteram a maneira pela qual filtramos o estímulo. Então, no caso acima, a situação era vista como uma “exposição”, ou seja, o ex vinha e mostrava que estava bem e com outra pessoa. A situação era sentida como uma afronta. Após um trabalho, a pessoa percebeu que o outro estava apenas vivendo sua vida e que ela poderia fazer o mesmo. Logo a situação muda de “afronta”, para “vida que segue”. Assim sendo a resposta emocional também muda, pois a emoção para “afronta” e para “vida que segue” são diferentes.

    “O sentimento que volta”, então apenas reflete que nossa maneira de encarar algo não mudou. Na medida em que conseguimos entender isso, olhar para o estímulo que causa a emoção e perceber como encaramos isso podemos fazer alguma mudança. O medo do sentimento que volta se reflete em sua ameaça, mas esta só poderá ser superada quando olharmos diretamente para o estímulo e nossa posição diante dele. Compreender que as emoções não são causa de nada, mas sim  respostas nos ajuda a aceitar o que sentimos e olhar para onde precisamos olhar: a situação que causa o problema.

     

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