• 10 de abril de 2019

    A falta do que me falta

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    – Mas e como que eu vou abrir mão disso?

    – “Disso” o que?

    – De ser feliz!

    – De que maneira você já teve isso para abrir mão?

    – Eu acho que eu nunca tive.

    – O que, de fato, lhe traz esta sensação?

    – Eu não sei direito… mas eu sei que tenho que buscar por isso!

    – E se você abrisse mão, o que poderia ocorrer?

    – Me sinto mergulhando num buraco fundo.

    – E o que encontraria neste buraco?

    – Não sei… mas a palavra “verdades” me veio à mente.

     

    Uma situação comum quando se pensa em neurose é fugir da única coisa que pode nos trazer (alguma) paz e tranquilidade. O que nos motiva a fazer isso? Ocorre que nem sempre é fácil para nós ver o que nos falta e aceitar esse fato, de alguma maneira, pretendemos o contrário: mostrar que somos melhores sem aquilo do que sermos humildes e buscarmos aquilo.

    Nem sempre é fácil, por exemplo, nos percebermos fracos ou carentes. Pois isso implica que esses sentimentos existem dentro de nós. Queremos ser auto suficientes e “não depender de ninguém”. Queremos a onipotência que cria a ilusão de que a partir desse momento não mais sofreríamos. Mas sofremos, um por que não conseguiremos ser onipotentes e, dois, porque se o conseguíssemos, não mais seríamos humanos e, muito provavelmente, isso traria sofrimento.

    Aquilo que nos falta, em geral provoca dor, medo, angústia e sofrimento. Por este motivo tendemos a fugir disso ou perceber como algo que não é desejável. O sofrimento que tivemos nos levou à conclusão de que era melhor nos afastar. A ideia é: “longe dos olhos, longe do coração”. Porém, o fato é que algumas coisas não podem ser “construídas” e ponto final. Existem elementos que fazem falta à psique. A prova disso é que em algum momento doeu, a falta, então é verificável. E se fez falta, é necessário cuidar disso. É óbvio que o que falta para um pode não ser igual para o outro, mas isso não neutraliza o fato da falta.

    A falta é, em outras palavras, algo que nos é necessário, por isso “falta”. A dor é o reconhecimento da necessidade. Porém, este é o tipo de dor que nos traz o alívio, é a dor que nos faz melhorar nossas vidas. Porque? Porque se de um lado dói, de outro se abre diante de nossos olhos aquilo que realmente precisamos fazer. É muito comum em consultório que meu trabalho seja manter a pessoa “fiel” àquilo que lhe falta. Muitas vezes o trabalho do terapeuta é ajudar a pessoa a ficar perto daquilo que lhe falta, para conseguir olhar sempre para o que realmente precisa fazer.

    As pessoas, muitas vezes, se focam em sucesso. Acreditam que se “tiverem sucesso” serão felizes e preencherão o buraco daquilo que lhes falta. Porém, em terapia, quando confrontadas com a pergunta: “o que é sucesso?” apenas uma noção vaga surge: “é estar bem”, “é conseguir o que se quer” e essas noções mais dificultam do que facilitam a vida, pois a pessoa continua sem saber o que procurar. Ao mesmo tempo, como ela coloca a palavra “sucesso” em seu discurso, cria para si a ilusão de que sabe o que procurar.

    Apenas é possível saber o que nos falta, quando olhamos para a falta e enfrentamos a dor e o medo que ela pode trazer. A falta nos traz um sentimento de trabalho e de preenchimento, de dificuldade e de satisfação, pois ela evoca, ao mesmo tempo, o esforço necessário para buscarmos aquilo que realmente importa e a satisfação. Não se engane, o que nos organiza de fato na vida, não vem barato, não é fácil e sempre envolve algum tipo de dor e ao mesmo tempo, nos fortalece, nos enaltece e, por fim, nos preenche.

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