• 10 de janeiro de 2020

    Os dois lados da mudança

    – E porque eu teria medo de algo que é bom para mim?

    – Me diga você.

    – Não faz sentido.

    – E ainda assim, isso está aí. Tente, em primeiro lugar aceitar isso ao invés de lutar contra esta emoção. Vamos ver o que acontece.

    – É… tenho esse medo mesmo. Eu acho que… fiquei muito tempo tentando me proteger de todos, por isso isto está aqui.

    – Perfeito. Não é a toa que você se fecha demais. Foi para se proteger.

    – Sim, mas agora isso me incomoda.

    – Exato, incomoda e protege, ao mesmo tempo. Para mudar, é importante olhar para estes dois lados do seu “fechamento”.

    – Entendo… tenho que arranjar novas formas de me proteger e aprender a me abrir né?

    – Precisamente.

    A lógica do consumo, nos faz crer que sempre buscamos o melhor para nós. Ledo engano, nem sempre nos permitimos acesso às melhores soluções porque, muitas vezes, tememos as consequências dessas escolhas. Os antigos diziam: cuidado com aquilo que deseja. A sabedoria deste ditado, está, justamente, em olhar para o pedido como um todo e não apenas para o seu benefício imediato. Tarefa difícil hoje em dia.

    Muitas vezes as pessoas desejam mudanças em suas vidas. Trabalho com isso todos os dias. Ao falarem sobre aquilo que desejam mudar, elas se empolgam e me descrevem como suas vidas serão melhores “se…”. Porém resta a dúvida: se é assim, porque já não fez esta mudança? Muitas respostas são possíveis, desde a falta de conhecimento sobre como mudar, até o tema deste post. Há algo não dito sobre mudança, mas que sempre aparece nestes processos: o medo de consequências e daquilo que é necessário fazer para obter a mudança.

    Tudo isso está relacionado com a maneira pela qual percebemos um problema. Em geral, percebe-se como “aquilo contra eu”. Nossos problemas são tratados como algo externo que se fosse retirado, tornaria tudo mais tranquilo. O problema é que somos, ao mesmo tempo, vítimas e criadores de nossos problemas emocionais. É uma tarefa muito difícil perceber e aceitar, sem se culpabilizar, que criamos boa parte de nossos problemas ou no mínimo, contribuímos para o cenário no qual eles ocorrem. Perceber isso, no entanto, é fundamental.

    Quando aceitamos nossa participação, podemos fazer algo com isso. Enquanto dizemos “não tenho nada a ver com isso, sou apenas uma vítima”, não é possível mudar nada. Apenas ao notar: “essa é a minha contribuição para a minha própria dor” é que podemos mudar alguma coisa dentro de nós. Dizer isso, então, significa que ao mesmo tempo que desejamos a mudança temos medo dela, pois vamos mudar algo que nós mesmos, de alguma maneira e com alguma intenção criamos.

    Exemplo muito comum: “quero ser mais eu”. Esta é a demanda. Porém, as pessoas, em geral, querem “ser mais elas” ao mesmo tempo que não se veem com bons olhos. Não é toa que alguém se fecha. A pessoa participa de seu fechamento para o mundo olhando para si e dizendo-se: “sou uma droga”. Há motivos pelos quais ela faz isso. Ao abrir mão desse comportamento, ela também precisa abrir mão desses motivos. Aqui reside o medo da mudança, ao mesmo tempo em que há o desejo por ela. Uma parte de nós vê o problema e deseja mudanças e esta parte está atrelada a outra que criou o problema.

    Por esta razão a mudança nem sempre é simples. Esta parte que criou o problema, em geral tentava solucionar outro problema. Em outras palavras, o problema de hoje já foi a solução de ontem. Quem se fecha, por exemplo, o fez para se proteger de críticas. Isso solucionou o problema, porém, anos mais tarde criou outro. A vida é assim, não há nada de errado com isso. Justamente por este motivo é que se torna fundamental perceber estes motivos ocultos e os medos, pois, diante deles é possível contemplar toda a escolha, todo o problema e não apenas parte dele.

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