• 6 de março de 2020

    Muita exigência, poucas soluções

    – Eu não posso fazer isso.

    – O que te impede?

    – Veja, eu comecei este negócio e não tenho como parar agora.

    – Eu entendo.

    – Entende?

    – Sim.

    – Mas então?

    – Você mesma está colocando: não posso parar. Isso significa que você não se permite parar, mesmo que veja a necessidade disso.

    – É… é algo assim.

    – Colocando de outra forma: você já entendeu que precisa quebrar o ovo para fazer a omelete. Mas não se permite quebrar o ovo entende?

    – Sim.

    – Você se cobra demais.

    – É verdade.

    Uma interessante consequência que exigir-se demais tem é a dificuldade em criar soluções para os problemas. Pode parecer estranho, mas um dos “sintomas” que são frequentes em pessoas que se exigem demais é que elas tendem a insistir muito em uma solução que não resolve nada. Aplicam-se uma lei conhecida, na Psicologia, como “mais do mesmo remédio”.

    A auto cobrança, ao contrário do que se fala, não é um problema. Na verdade, saber cobrar-se de algo que é realmente importante é parte fundamental para o desenvolvimento de disciplina e rotinas saudáveis. O problema é quando a cobrança toma proporções inadequadas e quando o objeto daquilo que a pessoa se cobra não lhe traz o que é importante. Traduzindo: a auto exigência se torna nociva quando a pessoa se cobra de algo que não é sua responsabilidade, ou quando se cobra por algo que não tem como conseguir fazer. Nestes casos a auto cobrança é inadequada.

    E em outros casos o problema está no resultado da ação. Ou seja, muitas pessoas assumem que precisam ou devem realizar determinada tarefa e se empenham muito para conseguir isso. O fazem na expectativa de que essa tarefa irá trazer algum tipo de retorno. Porém, a tarefa não atinge este fim. Simples assim. A pessoa acredita, por exemplo, que se conversar com seu cônjuge tudo vai melhorar, mas a pessoa em questão não é aberta à conversas. É preciso outro comportamento, mas a pessoa que se cobra de maneira indevida, continua querendo a tal conversa.

    Em geral, elas sabem que os comportamentos dos quais se cobram não são funcionais. Isso é algo importante. A consciência, porém, não as faz mudar de atitude. Elas insistem. É o que Salvador Minuchin chamou de “mais do mesmo remédio”. Aumenta-se a dose de algo que não funciona, qual o resultado? Mais do mesmo. O que as faz continuar, não é falta de inteligência, mas sim certo aprisionamento mental. Um condicionamento de que elas precisam ser melhores e se o forem, tudo dará certo. Por este motivo insistem. Elas acreditam, lá no fundo, que não fizeram do “jeito certo”. Basta saber como fazer e, então, sucesso.

    É óbvio que, muitas vezes,  realmente precisamos insistir do jeito certo e a “coisa” funciona. Porém, em muitas situações é necessário abandonar a estratégia original e seguir por outros caminhos. É a exigência que as aprisiona neste momento. Não é permitido para esta pessoa abandonar. Pessoas com cobrança muito alta, tem um grande problema com a palavra desistir. Embora a desistência seja uma atitude muito importante para a evolução, é complicado abrir mão, quando se deseja “ser melhor”.

    O desafio consiste em vencer o medo de dizer: isso não funciona. É difícil, mas importante para quem se cobra muito, compreender que abrir mão de algo definido anteriormente não é sinônimo de fracasso ou negligência (ou irresponsabilidade). Muitas vezes significa ser sábio. Não insistir naquilo que não se deve insistir é sinal de percepção refinada e não de falta de caráter. Isso porque, muitas vezes, alguns objetivos são válidos durante um tempo, mas depois disso, não são mais úteis. É como plantar e colher, há um tempo para isso, se passou do tempo, não adianta insistir. A mente realmente responsável é atenta para isso e reage de forma alegre e sem entraves às mudanças da realidade.

    Abraço

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