• 20 de março de 2020

As origens da raiva

Lidar-Com-a-Dor-da-Perda-de-Um-Ente-Querido

– Eu tenho uma raiva disso.

– O que te dá raiva nisso?

– Ele nunca me dá razão.

– Sim. E se ele te desse?

– Ele teria que mudar, não?

– Porque? Ele lhe dá a razão e ainda fica te devendo algo?

– Porque ele não mudaria se eu estou certo?

– Perceber que um argumento está certo, não significa querer torná-lo seu. Porque você quer mudar o seu pai?

– Eu queria que ele tivesse uma vida melhor, só isso!

– Eu sei. Tente abrir mão disso.

– Eu não consigo, é muito difícil pensar nisso.

 

A raiva é uma emoção com muitas facetas. Os motivos que nos levam a sentir raiva de alguém podem ser os mais diversos. Podemos nos sentir ameaçados por alguém, prejudicados ou abusados. Também podemos nos sentir injustiçados. Obter clareza sobre isso nos ajuda a ver nossa raiva e se ela realmente está nos servindo de forma adequada.

De forma geral, a raiva surge para nos defender de algo sentido como ameaça ou bloqueio à algo que desejamos e nos é importante. Porém esta percepção pode nascer de muitas fontes. à medida em que crescemos e compreendemos o mundo a noção daquilo que é “ameaçador”, do que consideramos como “bloqueio” e até daquilo que nos é importante varia muito. Assim sendo, como a raiva está ligada à estes conceitos é importante ter muita clareza sobre eles, afim de verificarmos quais são as raízes da raiva que sentimos de alguém (ou alguma situação).

Um dos temas mais complexos e difíceis envolve a relação parental e filial. Filhos e filhas olham para os pais e mães. As crianças amam os pais. Esta afirmação não é romântica, mas sim fatual. As crianças nascem em uma família e seu instinto as faz desejar aqueles adultos, amá-los não por uma razão, mas por um instinto. Há o desejo e a necessidade de pertencer. Assim sendo, ao olhar para os pais, o desejo da criança é estar próximo, ser vista pelo adulto e conseguir, de alguma maneira algo dele.

Esta dinâmica pode levar a criança a desejar proteger os pais de algo que os incomoda. É algo básico, algo comum. A criança quer salvar o pai ou a mãe da dor, de emoções negativas, de uma relação inadequada. Assim sendo, ela, com os recursos escassos que possui tenta ser mais forte e competente que os pais. Ela assume para si esta tarefa e tenta mudar a realidade ou os pais. Ela fracassa e sente-se mal com isso. Ela precisa conseguir, afinal de contas, os pais são tudo para ela. É importante conseguir mantê-los bem.

E então, ela sente raiva. Seja de um dos pais, seja da situação, de si ou de tudo isso. Algo não está indo de acordo e a criança sente medo por não conseguir mudar isso. O medo dá origem à raiva. É muito comum os filhos dizerem: meu pai ou minha mãe nunca aceitam nada de mim. Há uma mágoa nisso. Porém, em geral, estes filhos estão querendo ser maiores que os pais. Querem dar algo para eles de um lugar de “mais poder” e não do lugar de filhos. Os pais retrucam e alguns até dizem de forma clara: não se meta na minha vida. Os filhos ficam ainda com mais raiva.

Porém, se for possível olhar além da raiva e ver seus motivos, percebe-se que a criança se deu uma missão impossível: mudar o destino dos pais. Não lhe cabe isso. Isso não deve ser importante para ela. O que realmente ela pode fazer é assumir a vida tal como veio. Isso é muito difícil de se fazer quando há muita dor. Mas tentar negar a dor buscando modificar a realidade não ajuda. Aceitá-la e perceber nesta dor a força que vem com ela ajuda. Ajuda porque valoriza todos os envolvidos tal como foram. Nem sempre é o desejado, mais ainda assim, é o real. Quando isso se torna possível, o filho pode tirar um peso de seus ombros. E como mudar a vida dos pais não se torna mais algo “importante”, a pessoa não precisa mais da raiva e pode simplesmente curtir seus pais, tal como são, dentro dos limites que são possíveis.

 

 

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