• 8 de abril de 2020

    Quando a raiva mais profunda é, na verdade, amor mal amado

    – Eu fiquei com muita raiva, é sempre assim!

    – Você ama muito o seu pai, não?

    – Eu tenho raiva dele.

    – Você ama muito o seu pai, não?

    (Silêncio)

    – Eu fico com raiva dele quando faz isso comigo.

    – Você ama muito o seu pai, não?

    – (Com lágrimas nos olhos) Pare! Como eu posso amar ele quando ele faz isso comigo? Quando ele me diz essas coisas?

    – O que te deixa com raiva é o que ele diz ou o fato de você não conseguir fazer ele dizer outra coisa de você?

    (Chora)

     

    Quando olhamos para as emoções com respeito elas nos abrem um universo muito amplo. A raiva enquanto amor mal amado é uma das mais comuns e fortes. É muito difícil de lidar com este tipo de dinâmica, pois a raiva tenta proteger a pessoa de sua “recusa” afetiva, mas ao mesmo tempo é esta raiva que a mantém na busca de ser amada. O amor, neste caso, fica sempre oculto, mas precisa vir a tona.

    Ocorre desde muito cedo. A pessoa ama os pais e entende, em certo ponto que precisa fazer algo por eles. A necessidade pode ser de várias fontes: desejos inconscientes dos pais que passam aos filhos, problemas familiares que a criança “se dispõe” a resolver, faltas que os pais possuem que ela se coloca para suplantar. De uma forma ou de outra, a criança assume algo pelos pais. Isso é feito por amor, pelo desejo de pertencimento, para fazer parte da família. Este instinto gregário é algo comum à nossa espécie.

    Porém, este amor imaturo, infantil, quase sempre se torna algo pesado. Isso porque não cabe aos filhos tomarem e resolverem as dores dos pais. Quando o fazem, tomam para si metas inatingíveis, avaliam-se a partir de expectativas irrealistas e querem, dos pais, o reconhecimento por isso. É óbvio que o reconhecimento a partir dessa perspectiva não virá e por isso a raiva surge. O sentimento da raiva surge quando queremos retirar de nossa frente algo que nos impede de conseguir algo importante para nós.

    O que é importante para a pessoa? Conseguir um lugar especial na vida dos pais. Ser especial para eles é muito na vida da criança, é tudo. A questão é que ela continua perseguindo isso mesmo na vida adulta. Enquanto adolescente, ela briga e tenta “se livrar” da dependência dos pais fazendo “seu próprio caminho”, mas este já tem o desejo da criança no fundo. Será apenas escolher a mesma coisa de uma outra maneira. Assim sendo, a raiva também continua: “eles nunca me dão crédito”.

    Por fim, o que de fato ajuda? É apenas quando se percebe e aceita este desejo automático de ser alguém para os pais. A partir disso é que a pessoa consegue, enfim, ver o que ela está tentando atingir e perceber nisso algo inviável. Esta percepção nos abre a porta para ver que nossos pais não estão nos impedindo de ter o amor deles, é que simplesmente não precisamos provar nada, não precisamos fazer nada para já ser parte da família que temos.

    Esta sensação nada tem a ver com a aprovação dos pais, mas sim, com a abertura da pessoa para o seu destino. A criança acredita que precisa fazer algo para pertencer à família, o adulto reconhece a família da qual sempre fez parte. Essa é uma diferença importantíssima. Então a raiva pode ceder seu lugar, pois já não é mais necessária. O amor pode assumir uma forma mais adulta e centrada, dentro de limites adequados. O difícil, muitas vezes é reconhecer o amor e desejo de agradar os pais. Mas quando isso vem à tona a raiva  muda de perspectiva e encontramos soluções.

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