• 13 de abril de 2020

    Mas é que na hora…

    – Mas daí quando chego lá…

    – O que acontece?

    – Ah… me vem aquilo tudo de novo Akim, fico tímido e tal.

    – Sim e o que você faz daí?

    – Ah, acabo fazendo o mesmo que sempre.

    – Entendi, e o que te impede de fazer algo diferente?

    – Então, isso, eu me sinto tímido de novo.

    – Mas não é “tímido de novo”, é assim que você se sente a questão é a resposta que você dá a isso.

     

    Muitas pessoas acham que para fazerem uma mudança precisam estar com tudo dentro delas mudado. Isso é um erro. Em geral, mudanças são construídas ao longo do tempo com muitas pequenas mudanças de atitude em meio aquilo que somos. E muitas vezes percebemos que não precisamos mudar o que sentimos, apenas a resposta que temos frente à isso.

    Emoções são um tema recorrente. Depois do trabalho em terapia a pessoa vai para a situação que tem que enfrentar e se sente “novamente” do mesmo jeito. O problema não está na emoção, mas sim na resposta. Se ela sentir-se do mesmo jeito, mas buscar uma nova atitude estará contribuindo para sua evolução. Quando o processo terapêutico muda o sentimento em relação à uma situação é porque o tema era mais ligado à realidade interna. Mas em muitos casos a questão precisa ser resolvida “na prática”, ou seja a pessoa precisa sentir “a mesma emoção” e reagir de forma diferente no ato.

    Outras vezes a pessoa precisa deste novo comportamento. O processo terapêutico ajuda a pessoa a desenhar uma nova resposta e alicerça-la dentro do sistema de valores, mas isso não implica que a mudança na realidade se torne desnecessária. Quando estamos na “situação real” precisamos nos entregar ao novo aprendizado, mas muitas vezes, escolhemos dar um passo atrás e nos manter em nossas zonas de conforto. Diante de uma situação exercitar o novo comportamento é fundamental e isso vai requerer esforço.

    Este tema, inclusive, é algo importante. A crença de que com a terapia todas as mudanças serão feitas sem esforço nenhum, de maneira espontânea atrapalha muitas pessoas. Na verdade, este tipo de crença está alicerçada em um desejo de “não envolvimento” com seu próprio desenvolvimento. O desejo de ter a mudança sem o trabalho. É fundamental o envolvimento ativo e intencional justamente para perceber de maneira clara o que você está querendo tratar e aquilo que mais te ajuda nisso.

    O medo é outro tema. Em geral digo para as pessoas que o medo não é impeditivo da ação, pois é possível fazermos coisas com medo. Na verdade, o medo apenas sinaliza que algo na situação é sentido por nós como ameaçador, e então surge a pergunta: enfrento isso que considero ameaçador? O medo não é o problema, é apenas uma consequência. A partir do momento em que aprendo a me defender, posso enfrentar meu medo, a terapia ajuda a pessoa a aprender a defesa, mas ela precisará usá-la na prática.

    Sempre que nos colocamos um “mas”, estamos evitando algo. A busca por um cenário ideal e perfeito no qual não sinto medo e me posiciono completamente pleno e perfeito para enfrentar uma situação não é o que se deve ter em mente ao iniciar um processo de terapia. Esse pode ser o fim, mas o fim apenas chegará se passarmos pelos meios necessários para chegar lá e não o contrário. Primeiro vem o trabalho e depois a conquista, não conquistamos nada antes de ter o trabalho para isso.

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