• 27 de maio de 2020

    Vergonha

     

    – Eu não sei se vai dar certo.

    – Percebo que você sabe que vai dar errado.

    – É mais por aí mesmo.

    – O que te dá essa certeza?

    – Não sei…

    – Você se sente capaz de fazer algo bem feito?

    – No fundo? Não…

    – Pois é, por isso acha que vai dar errado. Porém, o que te faz ter esta certeza de que você não é capaz de fazer algo certo?

     

    Muitas pessoas sentem isso. Uma profunda sensação de que, não importa o que façam, tudo, no final, dará errado. Em geral, buscam criar mais competências e desenvolver aptidões, se tornarem sábias para conseguirem evitar a catástrofe. Porém, algo perverso sempre ocorre com estas pessoas: a sensação de catástrofe nunca as abandona… por mais sucesso que tenham obtido.

    A emoção da vergonha é muito importante para nossa espécie. A vergonha é uma norteadora de comportamentos sociais, de certa maneira uma pessoa completamente “sem vergonha”, pode cometer muitas gafes que podem prejudicar suas relações. Essas gafes não são apenas relativas ao “bom senso”, elas tratam da dinâmicas das relações humanas, assim sendo o tipo de comportamento vergonhoso embora tenha uma relação com a cultura, ultrapassa a sua mera concepção.

    O sentimento de vergonha, no entanto, pode tornar-se “tóxico”. Não é a vergonha em si o problema, mas sim as conclusões que as pessoas chegam a partir dela e o tipo de estímulo em relação ao qual nos sentimentos envergonhados (em boa parte das vezes, através de aprendizado). Quando uma pessoa aprende, por exemplo, que não é “boa o suficiente” porque a atividade que fez não “estava perfeita”, ela aprende este tipo de vergonha tóxica.

    O ser humano é “falho” por natureza, ou seja, somos incapazes de perfeição. Aceitar nossos erros é um profundo trabalho de auto conhecimento e a base de nossa auto estima. Porém, quando somos destinados a nos tornarmos perfeitos, esta “humanidade” é perdida. Assim sendo a pessoa faz uma fusão entre seu “eu” e seu comportamento e, visto que o comportamento é “errado” a pessoa também se julga como errada. Daí a vergonha que ela sente não é mais sobre seu comportamento (vergonha saudável), mas sim, sobre seu “eu” (vergonha tóxica).

    Quando o sentimento de vergonha se estabelece sobre o eu, não há realização no mundo físico que possa retirar o sentimento de dentro da pessoa. O melhor que é possível é uma atenuação momentânea. O ponto é que como o “eu” é falho não há como escapar do julgamento. O “estímulo” “eu” se torna um estímulo que desencadeia o sentimento de vergonha. Assim sendo, mesmo diante do sucesso, ela vai realizar uma leitura de que alguma falha ou problema irá acontecer, afinal de contas, “ela é falha” e foi “ela” quem fez isso.

    A ideia não é tentar ajudar a pessoa se “tornar mais competente”, mas, sim, em perceber este sentimento que possui em relação à ela. A vergonha tóxica sempre é produto de falhas de compreensão e educação. O eu não é passível de ser falho, podemos ter atitudes equivocadas, mas não somos “ruins enquanto ser” por causa disso. A compreensão disso, no entanto, não é intelectual, mas sim emocional. Aprender a sentir que somos merecedores de afeto positivo e de uma boa vida é fundamental para lidar com este sentimento de vergonha tóxica.

     

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