• 29 de maio de 2020

    A pessoa e o comportamento da pessoa

     

    – Mas eu tenho medo.

    – Sim, você tem. Qual o seu maior medo em relação à isso?

    – Não sei direito. Eu diria que é medo de não conseguir, mas é mais que isso.

    – Claro. O que acontece se você não conseguir?

    – Vou me sentir muito mal comigo mesmo.

    – Exato. Que tal seria se você apenas se sentisse frustrado ao invés de mal com você mesmo?

    – Talvez fosse melhor.

    – De que forma?

    – Não sei, ouvindo você falar, parece que é mais leve, que não é… nada comigo.

    – Exato. Você continua sendo uma “boa pessoa” por assim dizer, apenas não conseguiu algo.

    – Entendo…

     

    É comum a confusão entre identidade e comportamento. Ainda mais entre identidade e resultado de comportamento. Nesta confusão, a pessoa classifica o “eu” de acordo com aquilo que faz. É óbvio que existe uma ligação entre quem somos e o que fazemos, mas é importante perceber que o comportamento, por si só e seu resultado não podem definir o eu de forma completa.

    O fato de vivermos em uma sociedade que dá muita ênfase à produção e de nos percebermos como produtos de nosso meio ajuda nesta compreensão. Quando comparamos isso com outras culturas podemos ter uma noção mais ampla sobre a questão da identidade. Na Idade Média, por exemplo, as pessoas tinham sua identidade definida pela família de nascimento. Desta forma, não importava o que você fizesse, sempre seria a mesma pessoa. Tendo ou não sucesso em uma empreitada sua noção de eu não seria alterada, visto que já estava definida por seu nascimento.

    A noção atual de “self made person”, ou “fazer-se por si mesmo, nos cria a ilusão de que somos nosso comportamento. O problema com esta percepção é que ela causa alguns paradoxos interessantes. Por exemplo, quando faço algo bem feito, sinto-me bem comigo, porque sou uma pessoa boa. Porém se eu fizer algo e não tiver sucesso, me considero uma pessoa ruim. E então surge a pergunta: quem sou afinal de contas? Ou ainda: caso o resultado de minhas  ações não seja 100% definível pela minha ação direta e o acaso me faça ter um infortúnio, então, me torno uma pessoa ruim por causa das incertezas da vida?

    Este é o paradoxo que assola a mente de muitas pessoas, pois elas creem nisso. Esta perspectiva fechada as faz sofrer. Identidade é diferente de comportamento, ela é uma percepção, enquanto o comportamento é uma ação concreta no mundo. A identidade é algo abstrato, o comportamento concreto. Identidade tem a ver com uma percepção que torna características algo “do eu”, é quando dizemos: “eu sou assim”. Ela envolve o comportamento, mas não pode ser definida por ele, pois é mais ampla.

    O mesmo vale para pensamentos, por exemplo, o “eu” pensa ou percebe um pensamento, mas ele não se encerra naquilo que pensa ou na percepção do pensamento. O mesmo vale para emoções: o “eu” sente algo ao invés de ser aquilo que é sentido. A separação entre comportamento e o “eu” é importante para compreendermos que o “eu” experimenta coisas. Aquilo que fazemos tem resultados independentemente do eu. Se Se eu fizer algo de maneira “errada”, ou outra pessoa o fizer, o resultado será ruim da mesma forma.

    Manter a percepção de que os resultados de nossos comportamentos estão ligados aos nosso comportamentos e sua eficácia nos ajuda a preservar nossa integridade. Dizer: “esse ato não ajudou” é diferente de dizer “eu sou uma pessoa falha”, que é o que ocorre quando confundimos comportamento com identidade. Essa é uma das formas de minar nossa auto estima, pois é comum não termos o resultado que desejamos sempre, assim sendo, podemos nos sentir frustrados em relação ao que fizemos, mas não com nós mesmos e essa sensação nos ajuda a tentar de novo.

     

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