• 25 de setembro de 2020

    Não quero me arrepender!

    – Mas eu não sei o que eu quero fazer.

    – Sabe sim. O problema é outro.

    – O que é?

    – Você sabe. O que acontece se você fizer o que realmente quer?

    – Eu não sei…

    – Do que você tem medo?

    – Ah, eu não sei se vai dar certo… tenho medo de me arrepender depois sabe?

    – Isso, exatamente.

     

    Olhamos a frente e tememos o futuro, sua incerteza, sua forma volúvel. Olhamos para nós agora e pensamos que sabemos aquilo que queremos, mas mesmo assim, tememos a sombra do arrependimento. A fria estocada daquelas palavras: “não era isso que eu queria” podem nos impedir de ir adiante. O que fazer com isso?

    Talvez o primeiro ponto seja aceitar o medo que temos e o desejo de não sentir esta emoção. O arrependimento surge quando vemos que os resultados das escolhas que tomamos não eram aqueles que havíamos planejado. Arrepender-se pode ser algo muito duro principalmente se nós não aceitamos esta emoção. Quando isso ocorre procuramos várias formas para não sentir: ruminamos pensamentos sobre a decisão, delegamos nossa decisão para terceiros, evitamos tomar alguma decisão ou até mesmo procuramos obscurecer nosso desejo.

    Ao aceitar o medo, também é possível olhar a emoção temida. Então torna-se acessível perceber a emoção. Muitas vezes as pessoas adiam decisões acreditando que o problema está em qual decisão tomar ou em como executar a decisão. Porém, muitas vezes as atitudes nada tem a ver com decisão ou com o problema em si, mas, sim, com a emoção de arrependimento. Se o desejo é não sentir arrependimento a pessoa reage à isso, ela passa a ter comportamentos que buscam evitar sentir essa emoção.

    Porém, como não é possível ter nenhuma garantia de que o arrependimento não virá, a pessoa se ilude, buscando no pensamento ou outras atitudes neutralizar uma emoção que não pode ser neutralizada. Por isso, é importante tomar para si a possibilidade de arrepender-se. Sentir isso não nos impede de tomar uma decisão. Também não impede que a decisão seja boa ou ruim. Apenas tem a ver com algo que não háviamos planejado. Em geral, temos isso com perdas, ou seja, coisas que não imaginávamos que perderíamos e que, por fim, se perdem com nossas atitudes e decisões.

    É importante olhar para isso com carinho. Saber que a realidade de nossas escolhas é a incerteza nos ajuda a perceber um fato óbvio: não há como prevenir nenhuma emoção ao tomarmos uma escolha. O melhor que podemos dizer é: “eu não queria sentir isso”, mas esse desejo é apenas isso. O arrependimento poderá vir se você desejá-lo ou não. A questão reside, então em abrir-se para aquilo que é possível: nosso desejo. É apenas isso que é acessível para nós quando estamos diante de uma escolha.

    Obviamente podemos pensar sobre o assunto e algumas escolhas tornam-se mais óbvias do que outras. Porém o que tratei neste post não tem a ver com a decisão em si, mas sim, com a reação diante da possibilidade de arrepender-se. Este é o tema que deixa muitas decisões na gaveta. Não por não saber o que se quer, mas sim, por buscar de todas as formas prevenir-se contra a emoção. Ao aceitarmos sua possibilidade também criamos um espaço para que seja possível aprendermos com nosso erro caso ele ocorra.

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