• 5 de outubro de 2020

    Perguntas: contemplar ou responder?

    – Mas e como que eu descubro isso Akim?

    – Não sei.

    – O que eu faço então?

    – Que tal deixar a pergunta responder isso por você ao invés de tentar responder a pergunta?

    – Não entendo.

    – É difícil, mas apenas fique com a pergunta, sinta ela ao invés de tentar achar a reposta. Apenas deixe que a pergunta guie sua mente, sem se ocupar de para onde você está sendo levado.

    – É estranho, mas reconfortante.

     

    Qual a função de uma pergunta? No Ocidente tendemos a associar perguntas a problemas, assim sendo, o desejo é responder logo para acabar com o problema. Porém há outra forma de encarar as perguntas, permitindo que o vazio gerado por elas nos permita ser modificados por elas.

    É como entrar em uma caverna. Ao entrar vamos deixando o mundo externo e sendo lentamente tragados pela escuridão. Sentimos a grandeza da caverna diante de nós, nos percebemos pequenos, engolfados por um mistério de rochas e trevas. Ali somos pequenos, parte ao invés de todo. A caverna é grande, ela nos abriga. O vazio sentido neste lugar é de tal natureza que há muito espaço para o ser. A grande dificuldade é se permitir ser diante de todo aquele vazio.

    Quando nos damos esta permissão, porém, algo ocorre. Em geral queremos preencher o vazio, mas nunca desejamos ser preenchidos por ele. No oriente, falam em esvaziar a mente, ou seja, se preenchido por um vazio. Deixar que o vazio entre é abrir-se para algo novo e desconhecido. É permitir ser transformado ao invés de transformar, ser objeto de algo ou invés de agir sobre algum objeto. Nós, no Ocidente, desejamos agir sobre o mundo, mas nunca permitimos que o mundo aja sobre nós.

    Esta é a raiz da sensibilidade: permitir-se ser objeto de algo. Ao nos colocarmos como objeto e permitir que a pergunta aja sobre nós, mudamos nosso ponto de vista. Permito que aquilo que desconheço se manifeste em mim. Porém o faço não para usar isso, mas sim para ser usado por isso. Transformado por isso. Este “isso”, é uma parte de nossa experiência que negamos, que não queremos ver ou ainda que está mal formada. Nestes casos, desejamos agir, mas não sabemos que apenas deixar aquilo ocorrer pode ser muito mais produtivo (e menos cansativo).

    Assim algumas perguntas precisam de respostas: o que vamos comer no jantar? Como vou pagar o aluguel? Aqui o ser precisa agir no mundo. Outras perguntas podem ser vistas não como problemas para resolver, mas como cavernas nas quais mergulhamos: quem sou eu? Esta atitude de entregar-se à pergunta e ser transformado por ela ao invés de agir sobre ela é algo mais Oriental do que Ocidental, porém, cada vez mais se faz necessária em nossa cultura este tipo de atitude.

    Nem tudo é um problema, embora possa parecer. Nem tudo exige uma resposta do tipo “solução”, muitas perguntas precisam apenas de “possibilidades de ação”, outras, nem sequer disso precisam, são experienciadas apenas como sensações. O fato é que as perguntas podem nos levar à problemas para solucionar ou para mistérios à ser contemplados, como um belo pôr do sol. Se tentamos “solucionar” o pôr do sol, o perdemos, se apenas estamos ali, sendo afetados por ele, fazemos parte dele.

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