• 16 de outubro de 2020

    Destino e tragédia

    – É que estou vendo que tem coisas que simplesmente não dá para mudar.

    – Sim.

    – E o que se faz então?

    – Aceita.

    – Mas isso mexe com a minha vida.

    – Sim também.

    – E então? Aceita?

    – Bem, você pode negar, mas não sei de que forma isso te ajudaria.

    – Isso não é justo.

    – Isso não trata de justiça. A vida nos traz coisas, simples assim. Podemos tomá-las e fazer algo com elas ou negá-las e negar, assim a vida.

     

    O sentimento trágico nos faz refletir sobre a noção de destino. Afinal, somos mestres do nosso destino, podendo decidir para onde vamos, ou o mesmo já está traçado diante de nós e nos resta, apenas seguir seu curso?

    A reflexão sobre o destino é complexa. Ambas percepções são pequenas diante do evento real. É “pequeno” negar que nascemos em um contexto e que nosso destino está entrelaçado com este contexto. Também é pequeno negar que muitas pessoas mesmo dentro desse contexto, fizeram coisas que ninguém ali ousaria imaginar e foram “além de seu tempo”. A questão situação, então, em conseguir compreender que estes dois aspectos possuem forte influência na questão. Não somos vítimas e nem senhores, somos algo diferente.

    Com isto em mente, podemos tomar o pensamento trágico como forma de observar o destino. De forma muito simplista, perceber o mundo de maneira trágica é percebê-lo cru e em sua totalidade. O mundo trágico não é um mundo que tem uma definição à priori, por exemplo: “o mundo é bom”, “o mundo é ruim”, etc. Trata, simplesmente de ver, no mundo, tudo o que é do mundo e do jeito que é no mundo. Olhando nosso destino sob tal perspectiva, percebemos um ser humano interessante.

    Não temos um destino, afinal de contas, não há como saber aquilo que  virá. O mundo não nos oferece a sabedoria sobre o futuro. Apenas sobre aquilo que está aqui e agora. Ao mesmo tempo, não há como negar que olhando para o mundo desta maneira, certas possibilidades se abrem e se tornam muito possíveis, enquanto outras se fecham ao ponto de se tornarem impossíveis ou quase impossíveis. Esta é a perspectiva que podemos tomar em nossas mãos. Ver aquilo que estamos fazendo neste mundo, com estas competências e imaginar para onde isso está nos levando.

    Ao mesmo tempo podemos olhar para trás e ver: de onde viemos e como isso está nos empurrando para frente (ou puxando para trás)? O destino trágico é aquele que aceita que determinadas possibilidades se tornam quase impossíveis dependendo do contexto atual e de contexto anterior, assim como percebe e aceita que outras possibilidades se abrem. Assim não somos senhores do destino ao não controlarmos o mundo, mas também, não somos fadados à algo que permanece inteiramente fora de nosso controle.

    Somos algo intermediário, que possui poder limitado sobre alguns elementos e, com isso, consegue criar alguns caminhos. E que também existe em um contexto que surge antes de si, portanto, nesse sentido, dentro de algo com o qual vai ter que lidar e nisso, não temos escolha, apenas a escolha sobre o que fazer com isso. O trágico nos mostra que as histórias se reptem, mas que mesmo assim, é possível vivê-las de maneira plena. Afinal, não é a plenitude a virtude de quem toma a vida em sua totalidade? Sim, esta é a plenitude e, talvez, isso seja mais importante do que viver apenas feliz.

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