– Pois é, mas eu fico ansiosa com isso tudo.
– Me conte mais sobre a sua ansiedade
– Eu fico lá pensando no que vou poder fazer, mas para cada solução que acho eu arranjo mais um problema depois sabe?
– Sim, você consegue perceber algo na sua forma de pensar que tem a ver com isso? Veja, não é um “problema de trabalho”, mas algo relacionado à sua forma de ver o mundo.
– Hum… deixa eu pensar… tem a ver com eu nunca estar satisfeita?
– Tem
– Eu fico pensando assim: porque eu não deixo a coisa acontecer e depois vejo como lidar com ela ao invés de ficar do jeito que eu fico? Ia ser bem mais fácil
– O que você teria que fazer para isso acontecer?
– Não sei ao certo… algo que já falamos por cima talvez? De eu aprender a valorizar mais o que eu faço.
– O que uma coisa tem a ver com a outra?
– É assim: às vezes eu até consigo celebrar as minhas vitórias sabe?E sempre que eu faço isso fico tranquila e bem, mais criativa até o que me ajuda! E a minha cabeça fica livre dos problemas ou assim: se eu penso é para resolver e pronto, não fico me aprisionando nos problemas sabe?
– Perfeito!
Um discurso comum nos dias de hoje é melhorar sempre. Embora possa parecer razoável ou até mesmo desejável quando transposto para o dia a dia das pessoas este discurso pode ser perversamente nocivo.
Porque?
Existe um ditado alemão que diz: “mudar e melhorar são duas coisas diferentes”. Este ditado nos alerta para o fato de que a mudança constante nem sempre traz melhorias para a nossa vida mostrando que quando a mudança se inicia é importante saber a finalidade de tal mudança. Este é o ponto no qual o discurso “sempre melhor” é ferido, pois ele não leva em consideração a finalidade, apenas diz: “melhore sempre” de forma imperativa. Este imperativo deixa uma lacuna perfeita para a auto-desvalorização e é com isto que o discurso “sempre melhor” pode tornar a sua vida pior.
Tenho acompanhado no consultório cada vez mais pessoas que são bem-sucedidas em suas profissões e, no entanto, não conseguem aproveitar seus merecidos louros, apenas se cobrarem por “não estarem fazendo mais” e quando pergunto “o que é esse mais?” não sabem me dizer e ficam olhando com um ar de “como assim o que é esse ‘mais’, é ‘mais’ oras, todos temos que fazer sempre mais”. Quando este “mais” não tem um propósito, uma finalidade, uma meta ele torna-se uma quimera, um engodo, um problema porque facilmente se torna um depósito de coisas que querermos e não conseguimos em todas as áreas.
Explico: com algum tempo de trabalho as pessoas começam a decifrar o que é esse “mais” ou “melhor” e chegam à conclusões muito interessantes como: “preciso é me dar mais atenção e afeto”, “melhor é eu me dar parabéns quando faço algo bom”, “mais tempo para mim, é disso que preciso” entre outras que mostram o seguinte: estas pessoas estavam colocando no trabalho e na pressão para “render mais” metas muito boas, porém que não seriam atingíveis através do aumento de trabalho ou de pressão para o trabalho, alguns, exatamente o contrário, precisavam de menos trabalho.
No entanto o ponto dolorido de perceber é: as pessoas tinham estas metas que não eram atingidas e, enquanto não atingiam, queriam fazer sempre mais do mesmo atingido o mesmo resultado frustrante e o que faziam com isso? Chegavam à conclusão inevitável de que o problema era com elas! Elas estavam fazendo algo errado porque não “atingiam suas metas”, porém não iriam atingir nunca visto que o que precisavam não era “melhor, mais rápido e mais forte”, mas sim, em várias vezes: “mais calmo, mais prazeroso, com mais sentido”. O que ocorria era que buscavam uma coisa usando uma estratégia errada, mas o sentimento de frustração decorrente apenas fazia com que eles apostassem ainda mais naquilo que estava dando errado. Complicado não é?
A auto-desvalorização ocorre quando olhamos para o que conquistamos e temos uma das seguintes atitudes: não celebramos, procuramos defeitos no que fizemos de modo a tirar o valor do que fizemos ou de modo a invalidar o resultado. Enquanto a pessoa tira o valor do que realizou ela sente-se sempre num estado de insegurança e de necessidade de mostrar o seu valor o que nunca ocorre, pois toda vez que ela realiza algo busca os defeitos novamente entrando num ciclo vicioso. Este tipo de comportamento encaixa perfeitamente no discurso “sempre melhor”, no entanto, não melhora a vida da pessoa que usa esta estratégia que está sempre sentindo-se – enquanto identidade – uma farsa, mesmo que tenha resultados considerado por outros como excelentes.
É muito comum que a pessoa que tem este tipo de comportamento tenha aprendido isso de seus pais ou de alguma figura importante no passado, ele continua a repetir o processo quando adulto e a usar a mesma forma de avaliar o mundo com as outras pessoas. Obviamente o perfil é de uma pessoa insegura, mesmo que não demonstre a insegurança sendo altamente crítica com os outros, que busca uma aprovação que nunca vem. A pessoa aprende que elogiar é igual à mentir, por exemplo, ou que não se pode elogiar porque com isso as pessoas “se acomodam” e passa a viver a vida nesta briga constante entre fazer o melhor e não aprovar nunca este melhor. A palavra “satisfação” é quase um sinônimo de ilusão para eles.
O que fazer? À princípio é importante desfazer as crenças que associam a valorização à atitudes negativas como o comodismo e mentira. Trabalhar com a pessoa buscando critérios específicos para checar se algo é bom ou ruim e ajudá-la a usar estes critérios valorizando eles. E, de uma forma mais profunda, ajudar a pessoa a dar valor à si, ou seja, a valorizar quem é, a sua identidade pessoal. Obviamente não é tarefa para um final de semana, no entanto, ao longo de alguns meses a pessoa pode começar a desenvolver uma nova forma de se relacionar com ela e com o que faz aprendendo a dar valor e ser crítica com aquilo que gostou e com o que não gostou ao invés de viver apegado apenas aos erros.
A palavra de ordem neste tipo de trabalho é confiar em si. Confiança como já coloquei num outro post tem a ver com aprendermos a dar o devido valor ao que fazemos, às competências que temos. Uma vez que a confiança começa a se estabelecer o auto-respeito e a sensação de “mereço ser feliz” começam a pedir lugar e se estabelecerem na vida da pessoa. Este trajeto todo é um processo gradual, mas muito bacana e belo, no qual nos debatemos um monte para, no final, conseguirmos dizer: eu me amo tal como sou.
Abraço
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