• 22 de outubro de 2014

    Mágoas

     

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    • Eu ainda estou magoada com ele.

    • Eu imagino… foi uma situação difícil não foi?

    • Sim… e até hoje não sei direito o que fazer com aquilo.

    • Sim, isso, inclusive, te ajuda a se manter assim, magoada com ele!

    • É né? Acho que se eu soubesse dar uma lição nele não ficaria tão desamparada.

    • Eu também acho… como seria fazer isso?

     

    A emoção da mágoa nos diz que é melhor nos afastarmos. É como quando estamos machucados e nos afastamos daquilo que pode nos causar mais dano do que já estamos. É uma atitude sábia, mas tem limites.

    A mágoa não é uma emoção ruim, como já disse acima ela serve para nos proteger. E neste sentido é que é importante vermos até que ponto precisamos da mágoa em nós. A correlação com uma “mágoa” física é interessante para nos ajudar a pensar: se estou machucado fisicamente eu evito algumas atividades ou esforços que possam me prejudicar afim de que eu consiga sarar.

    Outro elemento que também me afasta é se, por exemplo, eu sofri uma lesão em um lance de futebol e aprendi como se deve entrar num lance como aquele ou não. Em outras palavras: se passei por uma situação traumática e aprendi a me defender nela eu posso deixar a mágoa ir embora. Por outro lado se o aprendizado ainda não ocorreu é possível que seja melhor eu ficar afastado – e a mágoa garante este afastamento.

    Estes dois pontos básico são, também, importantes para saber quando deixar a mágoa de lado. Se eu não estou mais ferido, posso voltar às minhas atividades normais ao invés de ficar me esquivando do mundo. Quando a pessoa se cura é importante voltar para o mundo aos poucos afim de poder reinvestir sua energia. Se ela não faz este movimento a mágoa começa a jogar contra ela ao afastá-la de um mundo para o qual ela já está pronta para ir novamente.

    O outro ponto que é o do aprendizado também é importante porque para ir ao mundo, muitas vezes preciso saber como lidar com ele. Assim sendo a mágoa, em geral se mantém enquanto não sabemos como lidar com aquilo que nos causou dor. Quando se aprende a lidar com isso, em geral a mágoa perde a sua função e a pessoa pode se libertar dela. Quando isso não ocorre a pessoa está se mantendo num terreno perigoso porque gera um afastamento desnecessário.

    Uma outra forma de se manter magoado é soberba. A pessoa quando é magoada pode assumir um papel no qual ele deve, eternamente, receber pedidos de desculpas de quem o magoou. É uma atitude infantil e que nada traz para a pessoa assim como para a relação. Esta identificação com o papel de “pessoa ferida” é muito problemática porque cega a pessoa para as oportunidades que se abrem diante dela. Junto com isso mina esforços voluntários para voltar ao mundo e se desenvolver.

    Voltar ao mundo, no caso de um relacionamento, por exemplo, não significa ter que manter relações com quem magoou você. Mesmo o ato do perdão não pressupõe um retorno à um rotina próxima. Cessar a mágoa significa se dar uma chance de voltar para a sua rotina, se abrir à novas oportunidades e certificar-se de que já aprendeu novas formas de se defender ou até mesmo de agir no mundo. O importante sobre a mágoa é compreender que ela nos afasta do mundo porque realmente precisamos, mas isso deve ser apenas durante o tempo que precisamos, nem mais e nem menos.

    Abraço

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