– Aí ele teve a pachorra de me dizer que não queria mais ficar comigo, acredita?
– Acredito.
– … Como assim “acredita”?
– Mais de uma vez você me disse que ele te achava chata e controladora. Me parece um bom motivo para sair da relação.
– Mas Akim! Como é que eu vou simplesmente deixar o cara por aí? E tudo o que eu faço por ele?
– São duas coisas diferentes.
– Eu não suporto quem fala assim comigo, ele vai ter o que merece.
– E você?
– Como assim?
– Vai ter o que merece?
– Como assim?
– Bem, neste momento o seu controle te levou à solidão, a vingança vai te levar à que?
– Eu não estou sozinha, posso ter quem eu quero!
– Não, não pode.
– Posso!
– Quem você está querendo te deixou.
– Odeio você quando fala assim.
– (silêncio)
– Fala alguma coisa!
– (silêncio)
– Pare com isso… to querendo chorar.
– Então chore, estar só é dolorido mesmo.
Muitas pessoas “fortes” são, na verdade, defendidas. Há uma diferença na maneira pela qual a força e a defesa são criadas, essas diferenças se refletem nos momentos dramáticos da vida da pessoa.
A primeira e mais importante diferença está no fato de que a força se constrói com base na realidade enquanto a defesa se sustenta por meio de fantasias e generalizações que negam a realidade quando esta se mostra diferente daquilo que a pessoa cria na fantasia.
Pessoas controladoras, por exemplo, podem ter tido uma infância na qual se sentiram traídas – ou foram de fato – por seus pais ou cuidadores primários. Isso gera um sentimento interno de falta de merecimento (porque outro motivo meu pai não me daria algo? É porque não mereço). Esta impressão que a criança faz de si e da situação é criada num momento de imaturidade emocional e intelectual, assim se torna uma “verdade” sobre a qual a pessoa irá construir sua percepção de si e do mundo.
Então, com a certeza de não ser merecedora procura de todas as formas merecer, fazendo tudo pela pessoa. Ao mesmo tempo, como teme ser traída novamente (“afinal porque alguém ficaria comigo?”) a pessoa deseja controlar o outro. Em termos de relacionamento a mistura entre o agrado e o controle gera uma sensação desconfortável ao outro que, pode desejar terminar. Assim a pessoa controladora pode tentar inúmeras artimanhas afim de minar a auto estima do outro para que ele se torne, de certa forma, dependente e mantenha-se na relação.
Este é o tipo de “força” que está baseada na dor e no drama interno. É “força” no sentido de que a pessoa consegue manipular o mundo à sua volta e atingir objetivos. Por outro lado, é apenas uma defesa contra o medo profundo que tem de ser traída e abandonada à sua própria sorte novamente. Assim sendo, embora a pessoa tenha competências, ela não tem, dentro de si, força real, adaptada ao que a pessoa está vivendo e sim em relação ao seu drama.
Já a força propriamente dita tem a ver com a percepção de si e da realidade. Em lidar com o que de fato ocorre. Não é força no sentido de manipular situações, mas sim, no sentido de vivê-las de acordo com o que se consegue. Envolve reconhecer limites e fraquezas pessoais, porém, encarando-os de frente. A diferença é que esta força não precisa subjulgar o outro, ela lida com a realidade do outro, com seus limites, reagindo ao que o outro é e deseja ao invés de manipular aquilo que o outro é e deseja.
Abraço