• 23 de maio de 2016

    Não explique, descreva

    – Mas daí Akim, o que aconteceu? É que na verdade eu tenho que te dizer que eu não consigo lidar muito bom este tipo de coisa porque quando eu…

    – Calma… respira.

    – Sim, sim… eu estava pensando que…

    – Calma… respira.

    – Ok.

    – Me descreve o que acontece aí dentro.

    – Pois é! É o que eu estava falando para você, não sei muito bem lidar com isso porque…

    – Respira e me diz o que é que está acontecendo aí, antes de me dizer o que porque você diz que “não sabe lidar” com isso.

    – Tá… é difícil isso…

     

    É comum tanto na psicologia quanto no senso comum buscarmos explicações para os fenômenos. Porém, muitas vezes as pessoas usam a explicação como uma defesa contra a experiência que estão sentindo.

    Para explicar algo é necessário, inicialmente, descrever. Não se pode explicar algo que não se conhece, portanto, a descrição de um fenômenos é a parte inicial do processo. Em termos pessoais a descrição pode ser um tanto incomoda porque a pessoa precisa aceitar aquilo que está ocorrendo com ela. Quando percebe-se algo considerado “bom” a tarefa de aceitar é simples, porém, quando se percebe algo “ruim” ou “proibido” tem-se um problema.

    O “problema”, para muitas pessoas, é conseguir integrar o que é percebido à sua percepção de “eu”. Em outras palavras: cada um de nós tem uma auto imagem. Quando se percebe algo no nosso comportamento, sentimento ou pensamento que vai contra aquilo que temos como “eu” (nossa auto imagem), temos a tarefa de incorporar esta percepção e atualizar a nossa auto imagem.

    Esta tarefa pode ser complicada para muitas pessoas que não possuem, por exemplo, um ego capaz de assumir ou aceitar esta diferença. A culpa, medo ou vergonha podem ser insuportáveis (tanto pelo fato da emoção ser intensa demais ou pela pessoa não saber lidar com ela) e a pessoa tende a negar a percepção. Uma maneira interessante de negar a percepção é a explicação.

    Embora possa parece ilógico, explicar um evento que percebo em mim pode ser, sim, uma maneira de negá-lo. Ao explicar é comum assumir “distância” daquilo que se explica. Esta “distância” quando estamos falando de algo pessoal como uma emoção é assumida ao custo da percepção daquilo que se pretende explicar. Nesse momento, é como se a pessoa se afastasse dela mesma e criasse um “eu com aquela característica que não sou eu” e um “eu sem aquela característica” que é quem explica o que acontece.

    Por exemplo, digamos que não me permito sentir raiva por achá-la uma emoção “ruim”. No momento em que me pego sentindo esta emoção, não acredito e imagino porque dela estar aí. Começo a pensar tanto neste porque que me afasto da minha sensação de raiva e a observo como se fosse em outra pessoa. Neste momento, temos uma cisão e esta cisão é problemática porque afasta a pessoa de sua própria experiência.

    Ao descrever o que está acontecendo a pessoa se força a voltar a sua percepção ao que ocorre nela no “aqui- agora”. É uma maneira de “forçar” o ego a aprender a se dar conta daquilo que ocorre com ele mesmo. Afirmar esta percepção e integrá-la, para, então, compreender de onde o fenômeno (pensamento, sentimento ou ação) veio. Isso é importante porque quando usa-se a explicação como defesa a  tendência é perceber o fenômeno como algo externo que “caiu” sobre a pessoa. Neste segundo compreende-se o fenômeno como algo interno, uma reação, de fato, da pessoa.

     

     

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