– Mas é a minha opinião, Akim, você tem que respeitar isso.
– Respeito a sua opinião e o seu direito à ter uma opinião, porém isso não significa concordar com ela.
– Mas porque você não concorda? Não é só a sua opinião?
– Não.
– Porque?
– Simples, porque a sua “opinião” na verdade se mostra falsa na realidade. Você está pensando que o seu problema é falta de motivação, mas quando se sente motivado o que faz?
– Deixo tudo para outra hora.
– Pois é, não se trata de “opinião”, mas sim daquilo que estou vendo no seu comportamento. Você pode continuar buscando uma motivação, mas seu problema é, simplesmente, começar a fazer e não parar como você sempre faz.
Como já escrevi em um artigo vivemos na “Era da opinião”, mas será que nossas opiniões são, de fato, tão importantes, tão acima da crítica quanto pensamos que são? Você já pensou que o direito inalienável que você se dá em ter, do seu jeito, a sua opinião, pode prejudicar ao invés de ajudar você?
Dizer que a opinião das pessoas não é tão importante quanto elas acham pode soar estranho e até mesmo violento hoje em dia. Porém, quando eu era pequeno, isso não era nenhum problema, ouvi várias vezes isso de meus pais e professores, embora, na época, eu não tivesse gostado muito disso, alguns anos mais tarde compreendi o porque minha opinião não era tão importante quanto eu achava que era.
No meu caso o problema era falta de experiência em muitas coisas da vida. Eu queria dar opiniões para as quais não tinha maturidade. Ao longo da vida descobri que além da falta de maturidade, a opinião de alguém (muitas vezes a minha) também não era importante pelo fato de estar errada ou baseada em conceitos que não levavam, necessariamente, às conclusões que eu desejava.
O leitor mais atento está percebendo o critério que estou empregando para afirmar que determinadas opiniões não são importantes. Hoje em dia entendemos que as opiniões são importantes pelo fato de elas pertencerem à alguém, uma variação pós moderna da frase de Voltaire: “posso não concordar com nenhuma das palavras que disser, mas defenderei até a morte o direito que tem de dizê-las”.
Ocorre que o valor da opinião não pode ser medido apenas pelo fato de estar sendo dito por alguém. Opiniões são formadoras de caráter e condutas de vida, assim sendo, elas possuem uma serventia. Opiniões, portanto, não são questões de gosto e sim questões de lógica e realidade. É diferente dizer “eu gosto de música clássica” e dizer que “música clássica é importante para o desenvolvimento pessoal”.
O gosto reflete uma atitude sensorial, algo que gera prazer em mim. A opinião não tem nada a ver com isso. Opinião tem a ver com fatos, com a relação entre os fatos e aquilo que consigo apreender desta relação. Assim, embora a opinião seja “sua” ela pode estar errada e será melhor para você abrir mão de sua arrogância e acatar outra opinião que seja mais vinculada à realidade.
Este, inclusive, é o problema. Quando disse, acima, que temos uma variação pós moderna da frase de Voltaire, o fiz pelo fato de que Voltaire defendia o direito à expressão, mas não o direito a falta de sustentação daquilo que é dito. Ele era um iluminista e, como tal, buscava a lógica nos discursos, garanto que ele poderia defender seu direito de dizer algo, porém, dependendo do que fosse dito, também defenderia o direito dele em dizer-lhe para se informar melhor sobre o que estava falando.
Porém, na pós modernidade, defendemos o “direito do consumidor”, ou seja, se eu fiz a opinião, não importando o quão absurda ela possa ser, tenho o direito de expressá-la e ninguém tem o direito de questionar. Usando o critério de que opiniões são ferramentas para algo e não meios em si mesmas, preciso discordar desse argumento, não apenas existe o direito, mas talvez certo dever em questionar opiniões mal formadas.
Posso ter a opinião de que todas as pessoas são robôs e que eu sou o único ser humano do planeta, dar crédito à esta ideia e tratá-la no mesmo nível de uma opinião como: acho que a educação é fundamental para o desenvolvimento do caráter das pessoas é uma questão de falta de crítica. É óbvio que muitas vezes uma opinião não popular se mostra verdadeira, porém isso não é motivo para acharmos que todas as opiniões merecem o mesmo nível de valor. A opinião de um fanático, por exemplo, é de que toda pessoa que não pertença a sua religião é uma pecadora e deve ser morta, você daria valor à esta opinião?
Assim sendo, não importa se sua opinião é ou não sua, mas sim a base da qual você retira estas ideias e a validade delas na vida prática. Muitos de meus clientes tem vidas miseráveis simplesmente pelo fato de não abandonarem algumas opiniões que se mostram e se mostraram (e provavelmente se mostrarão) inadequadas.
Abraço
- Tags:Akim Rohula Neto, Auto Expressão, Auto-estima, confrontar, conquistas, consumismo, Crises, Desejo, Direitos, Escolhas, Mudança, Opiniões, Psicoterapia, Sociedade, Vida