• 28 de junho de 2017

    O salvador

    – Mas Akim… eu não posso dizer isso para ela!

    – Porque não?

    – Porque ela vai ficar magoada.

    – Sim, ela vai.

    – Então poque eu diria?

    – Porque você já está magoado e a sua relação não está boa com isso.

    – É verdade… mas…

    – Mas… ela pode ser poupada de ouvir verdades, enquanto você pode ficar com o ônus de sentir-se mal? Você já viveu isso antes, sabe onde termina.

    – É… eu sei…

    Em nossas relações tendemos a assumir papéis. Eles são funções que acreditamos que devemos ter para que nossos relacionamentos funcionem. Porém, quando se tornam rígidos e inconscientes, estes papéis jogam contra nós e nossa felicidade.

    Um dos papeis que costumo ver muito em atendimentos é o do salvador. Em geral a pessoa que se identifica com este papel crê que deve, de alguma maneira, salvar os outros de um destino ruim. Essa identificação pode ocorrer de uma maneira muito evidente, como o caso da mãe super protetora que não consegue compreender como o “filhinho” de 30 anos quer sair de casa, até aspectos muito sutis como o conjugue que adora dar palpites (que na verdade são formas encobertas de corrigir o comportamento do outro).

    Seja qual for a “versão”, o salvador da pátria está sempre ocupado com outro. A pessoa que se coloca nessa posição entende que seu papel é olhar pelo outro. O amor e a continuidade da relação dependem de seu esforço em manter a outra pessoa funcionando. Versões mais “caricatas” desse papel são mulheres que assumem relações com homens com problemas de dependência química no intuito de salvá-los. É uma dinâmica inconsciente que sempre coloca a pessoa neste lugar de olhar para o outro.

    O receio oculto e jamais revelado é a solidão. Em geral, pessoas com o perfil de salvador da pátria temem ficar sós ou serem reprovadas. Uma crença comum é que o amor irá resolver tudo. Basta amar muito e os defeitos do outro acabarão. A função do salvador da pátria é encobrir os defeitos dos outros de modo que as relações possam continuar. Assim sendo, a pessoa se coloca em uma posição de aguentar problemas de forma muito desproporcional para que tudo continue do jeito que está.

    Porém, esta fantasia infantil apenas traz problemas para todos. O salvador se vê sempre em situações problemáticas nas quais ele dá mais do que recebe. Termina sempre sendo abusado. A outra pessoa, de outro lado, se vê sempre infantilizada como se precisasse de alguém para tomar conta dela o tempo todo e não assume a responsabilidade pelos seus atos. Esta dinâmica sempre termina em problemas.

    A questão, para o salvador, é aprender a ver que a fantasia que ele cria é infantil. O amor enquanto afeto sentido por outra pessoa não cura por si só, ele precisa ter uma forma adequada. As relações precisam ter sustentabilidade pelos comportamentos que criam e não apenas pelo afeto que possuem. Seres humanos vivem em um mundo concreto, por esta razão precisam saber como lidar com ele. Aquilo que nos incomoda, por exemplo, não pode ser deixado de lado por medo de que o outro não vá gostar, é importante de ser dito. Assumir o compromisso com o bem-estar de todos os envolvidos na relação de forma sustentável é difícil, mas é o que traz resultados.

     

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