• 15 de setembro de 2017

Sobre deixar o passado morrer

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– Eu quero esquecer.

– Entendo você, mas é difícil fazer isso. Difícil apagar toda esta história da sua mente para sempre.

– Mas o que eu faço então? Deixo isso assim?

– Não sei, o que te parece “deixar isso assim”?

– Horrível, fico lembrando dela, do que aconteceu entre nós…

– E?

– E? Como assim… “e”? É uma droga! porque eu não posso ter isso?

– Porque não.

– Mas eu quero ter!

– Entendo, mas não será possível. É difícil aceitar isso?

– É uma droga!

 

O passado tem sua importância para nós. Conhecer quem fomos é fundamental para nossa concepção de eu. O mesmo vale para aquilo que vivemos, as situações que, de uma forma ou de outra, nos moldaram. Porém, aceitar que o passado “foi”, se faz fundamental para “ir” adiante.

Um dos pontos mais interessantes à respeito da memória é que, além de seletiva, ela também é esperta. A memória não é um retrato fiel daquilo que nos aconteceu. Assemelha-se mais à uma colcha de retalhos com os quais construímos uma narrativa que faça sentido para nós. Com o tempo, alguns detalhes somem, outros assumem uma importância maior e a história vai mudando de acordo com isso. Nossa capacidade de lembrar não serve para nos manter prisioneiros do passado, mas sim para nos capacitar a ir em direção ao futuro. A memória e seu conteúdo é muito mais plástica do que pensamos ser, assim sendo, a história que criamos a partir dela é de fundamental importância para nossa saúde psíquica.

O problema com o fim de algo é que, muitas vezes, não queremos seu fim. Embora pareça óbvio, na dinâmica emocional, isso se confunde com a necessidade de algo novo, raiva ou indiferença. Enquanto mantemos uma história que terminou ativa em nossa mente, a memória a deixa viva, nos faz coletar dados da realidade para corroborar nossa história, mesmo que inconscientemente. Este tipo de atitude é normal nos primeiros momentos do luto (“primeiros momentos” não faz uma referência temporal e sim processual, ou seja, em termos daquilo que ocorre antes e depois do evento). Quando mantida, no entanto, ela torna-se melancólica. A questão é que reagimos à melancolia, alguns lutando bravamente “não posso me entregar”, outros sucumbindo “não consigo mais viver”. Ambos são exageros da forma – e mantém o passado vivo.

Portanto, muitas vezes é importante aprender a abrir mão daquilo que se passou. Abir mão não é esquecer, mas sim, aceitar a perda de maneira integral. “Deixar o passado morrer”, como gosto de falar, é deixar o passado pertencer ao passado. Buscar tornar o passado presente é uma maneira de tirar sua dignidade. Afinal, tudo o que é vivo, mais cedo ou mais tarde, morre. Aceitar a passagem do tempo, a perda daquilo que foi bom e importante é honrar de forma digna aquilo que foi. A tentativa de manter o passado vivo é a recusa em aceitar que a vida passou e continua sem aquilo que aconteceu, isso não dignifica os momentos vividos, pois os transforma em marcos definitivos da vida.

Ao permitir que o passado lá fique, assumimos a passagem do tempo e o fato de que permanecemos vivos. Embora a dor da perda seja difícil em ser superada, a emoção de sentir-se vivo apesar de tudo é muito mais complexa de ser sentida. A noção de que é possível ser feliz novamente, amedronta muito mais do que a percepção de nunca mais ser feliz. Esta leva à morte e todos sabemos que morreremos um dia, passamos, apenas a querer antecipar o momento. A primeira, nos faz olhar para a vida e entender que ela pode ser ainda mais surpreendente do que já foi. Como dizer que um momento mágico e maravilhoso, ao longo do tempo, apenas cedeu lugar para um ainda mais maravilhoso?

O importante, nesse momento, é a vida. Se concebemos a vida, torna-se fácil se desapegar daquilo que foi. Manter-se vivo também é estar diante das surpresas da vida. Não sabemos o que ela nos reserva, porém sabemos que há algo reservado. Quando deixamos o passado morrer, nos levantamos e podemos olhar o horizonte. Olhamos e sentimos esperança, desejo e medo. Tudo aquilo que já vivemos antes, sabemos que poderemos viver novamente. Deixar o passado morrer significa dizer “sim, vou viver isso novamente” e ir. Quem fica, morre com o passado. Quem vai, deixa seu passado e vive o futuro, que mais tarde torna-se um novo passado.

Abraço

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