• 18 de setembro de 2017

    Dinâmicas complexas ou a arte de viver paradoxalmente

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    – Mas Akim eu não quero fazer isso.

    – Quer.

    – Eu não quero!

    – Então porque fez? Não estou querendo “achar” que você “vai” fazer, você já fez.

    – Eu não aceito isso.

    – Claro que não, por isso está com raiva da escolha que já tomou.

    – Mas como eu posso fazer uma coisa que eu não quero?

    – Me parece que tem uma parte sua que quer, tanto que você o fez.

    – É muito difícil entender isso.

    – É.

     

    Stanley Keleman afirmou que tornar-se adulto é conseguir suportar vários estados paradoxais ao mesmo tempo. A afirmação é ousada e faz referência a uma experiência que todos temos: sentir raiva e amor ao mesmo tempo. Desejar e, ao mesmo tempo, repugnar. A ambiguidade de emoções representa complexas dinâmicas psíquicas que precisam ser analisadas adequadamente para se chegar na resposta à pergunta: o que eu faço?

    Quando vamos pensar em emoções conflitantes, o primeiro ponto que precisamos analisar é o “estímulo”. A pergunta para entender “estímulo” é: o que me fez sentir assim? Esse questionamento busca o objeto que dispara em nós uma emoção. Porém, identificar o estímulo nem sempre é fácil, pois o sentimento (a percepção que temos da emoção) pode ocorrer tempo depois do estímulo ter sido percebido. Algo visto ontem, pode ser sentido apenas hoje, por exemplo. Outro complicante é que o mesmo estímulo pode desencadear em nós diferentes emoções. Isso varia conforme aquilo que vemos no estímulo. Assim sendo, ao ver um conjugue em potencial, uma pessoa pode sentir desejo ao olhar para as qualidades da pessoa e medo ao pensar que pode ser traído (a) novamente.

    Outro fator que complica a percepção do estímulo é que muitas vezes a emoção que sentimos se torna um estímulo. Assim sendo, no caso acima, ao sentir desejo por alguém a pessoa pode sentir repugnância sobre o sentimento de desejo. Uma frase como “não preciso de ninguém”, ou “que idiotice sentir isso”, surgem na mente em resposta à sensação de desejo. Porém, ao detectar esses estímulos torna-se possível reconhecer e compreender o que nos causa as emoções conflitantes. A resposta geral das pessoas é querer se afastar da situação que causa o conflito, porém afastamento não é sinônimo de resolução.

    Ao identificar o estímulo, podemos chegar à algumas conclusões. A primeira é se o caso trata de um estímulo ou de mais de um. A segunda é se temos várias emoções para o mesmo estímulo e sob qual perspectiva analisamos o estímulo para termos uma ou outra emoção. Cito o trecho de uma poesia para ilustrar: “O medo que sinto / te faz a mulher que amo / o medo que tu ama em mim / me faz o homem que odeio”. A emoção do medo tem dois desfechos muito diferentes: amor ao outro e ódio à si. Provavelmente, o autor se referia à uma dinâmica clássica em que o medo de estar só faz com que a pessoa “ame demais” afim de manter vínculos e se torne, justamente por isso, dependente demais o que faz com que ela “odeie a pessoa que é”, ou melhor dizendo: a maneira pela qual se vincula, pois se percebe “fraca”.

    Estas dinâmicas não envolvem apenas as emoções. A maneira pela qual a personalidade está estruturada, assim como as competências sociais da pessoa também fazem parte deste cenário. A personalidade influencia diretamente os estímulos que prestamos atenção e a maneira de interpretá-los. Uma pessoa com uma personalidade mais dependente terá uma leitura diferente sobre receber um “não” à um convite para sair do que uma com personalidade mais agressiva. As competências sociais e emocionais vão auxiliar na maneira de processar o que o estímulo desencadeia. A resposta, neste sentido, é fundamental, pois é com ela que a interpretação do estímulo se concretiza.

    Quando somos pegos em emoções conflitantes, é fundamental identificar cada elemento e tratá-lo como um processo em si. No caso da poesia que trouxe, por exemplo, é importante o homem reconhecer o amor que sente e a dependência que ele produz. Tratar o amor com amor e aprender a tornar-se mais independente. Isso pelo fato de que este diferentes estímulos tem diferentes histórias. Assim sendo, o mesmo cenário pode desencadear estas histórias diferentes, mas elas não fazem parte do mesmo cenário. Ao tomar cada emoção como um processo em si, facilitamos a compreensão e a resposta para a pergunta: o que eu faço?

    Abraço

     

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