• 4 de outubro de 2017

Ao invés de agradar, agradeça

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– Eu quero agradar eles, sabe?

– Sim. E consegue?

– Ah, é difícil.

– Sério? O que é difícil?

– Ai Akim, não sei ao certo… Parece que nunca acaba sabe?

– Nunca acaba o que?

– Não sei ao certo, mas as coisas que tenho que fazer para agradar sabe?

– Hum, porque não acabam?

– É sempre algo novo.

– Entendo. E será que um dia acaba?

– Acho que não.

– Então é uma prisão isso não é?

– É… eu me sinto meio mal até. Porque de um lado eu quero, porque sinto que eles me fizeram bem e quero fazer bem para eles também entende?

– Claro que sim, mas será que é possível “pagar essa dívida” por completo, por assim dizer?

– Acho que não.

– Então porque não para de querer quitar a dívida e simplesmente agradece para eles?

 

Dar e receber. Agradar. Agradecer. Parece simples. Mas as dinâmicas emocionais e psicológicas que envolvem estes atos fundamentais para qualquer relação tornam-nos complexos. Podemos nos enredar e tornar estas dinâmicas disfuncionais ou olhar para elas com humildade e seguir nossa vida adiante. Isso marca a profunda diferença entre agradar e agradecer.

Alguém nos dá algo. Ficamos felizes. Olhamos para a pessoa e queremos agradecer. Pensamos em fazer algo por ela para dar retorno daquilo que recebemos. Muitas vezes tenta-se dar um pouco a mais afim de puxar a balança para o nosso lado e ficarmos “por cima”. Esta dinâmica faz o outro querer dar mais também. É como os apaixonados começam, por exemplo. Um dá, o outro dá um pouco mais e isso faz a relação ficar mais forte, porque todos querem dar algo bom para o outro sempre em maior quantidade.

Isso é saudável. Em relações entre iguais, as pessoas conseguem dar algo em troca. Porém, algumas vezes enfrentamos um problema: o que recebemos é algo tão valioso que não temos como dar em retorno. A vida é um exemplo: como se paga a vida à alguém? Impossível. Mesmo salvando a vida de quem lhe deu ela, ainda fica a marca de que isso só foi possível porque você a recebeu em primeiro lugar. Uma oportunidade que nos é oferecida, um presente muito além de nossa faixa de orçamento, uma atitude que foi imensamente importante para nós. Esses são exemplos de coisas que recebemos e não podemos pagar”.

Então, queremos agradar. Queremos agradar para não perder de vista aquela pessoa que nos fez tão bem. O problema com “agradar” é que, embora seja prazeroso, nada mais é do que cortesia e educação. O fato permanece: sabemos que não vamos conseguir nunca equilibrar a balança. O que fazer? O mais difícil: aceitar. Não há como pagar a dívida, aceite-a. Pare de usar o ato de agradar como um engodo para o fato de que há algo que você nunca dará conta de ressarcir a pessoa. Aceite sua dívida.

Porém isso não nos basta, pois aceitar a dívida nos impele à algo. O que seria isso? Agradecer. É um ato simples, porém poderoso quando é feito de maneira verdadeira. Existe um ditado muito comum que é “Deus lhe pague”. Dizemos isso porque sabemos que não podemos pagar, torcemos para que alguém possa. Aceitar a dívida é algo assim, porém ainda mais humilde. Não damos a nossa dívida à Deus. Ficamos com ela. Aceitamos ser um devedor daquela pessoa dando à ela a única coisa que podemos: nossa gratidão.

Isso basta? Sim. Dificilmente vi alguém reclamar sobre alguém que agradeceu de maneira verdadeira e profunda. Já vi muitas pessoas reclamarem – e isso é muito comum – sobre não ser reconhecido ou até sobre os agrados. Dizem, então: “ele (a) quer ficar me agradando, mas não quero isso. Basta ele me dizer, obrigado e pronto, a vida segue”. O agrado se torna um problema porque afasta as pessoas (por incrível que pareça). As afasta do ato de agradecer, no qual cada um reconhece o seu papel e a sua potência na relação. Não há nada de errado com isso, na verdade é o que realmente torna as relações livres, algo como: você me deu e eu recebi. Agradeço muito pelo que recebi. Essa gratidão é tudo o que posso lhe dar em retorno. Sigo com minha vida com isso que você me deu e eu recebi”. Simples não é? Sim e libertador.

Abraço

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