• 4 de dezembro de 2017

    O medo de errar (ou de se ver imperfeito?)

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    – Eu simplesmente não quero fazer.

    – É fácil dizer isso. Mas um tanto covarde também.

    – Como assim “covarde”?!

    – Ora, é simples: é possível ver daqui o seu medo. Mas você não fala dele.

    – Não é medo, eu só não quero mesmo.

    – Sim, e isso é o que você sempre fala. A hora em que os problemas surgem, as dificuldades aparecem e você precisa assumir que não sabe tudo, logo vem: “ah não quero mais”.

    – Mas é isso!

    – Sim, a única palavra que não está bem alocada é “quero”.

    – E qual seria melhor?

    – Você sabe, mas também tem muita dificuldade em dizê-la.

     

    Errar é humano, diz o ditado. Mas, se é assim, “tão humano”, porque aprendemos a temer o erro? Na concepção de “errar” existem mais significados do que podemos imaginar. O erro, dificilmente é visto sob uma perspectiva pedagógica, mas sim, sob um profundo e imperceptível pano de fundo moral e julgador. Esta é a raiz do problema.

    Porque isso se torna um problema? Por um simples fato: o julgamento tende a criar um cenário futuro muito negativo e opressor, assim sendo, passamos a temer este cenário e, com isso, a nos afastar dele. Porém este afastamento, não nos auxilia a lidar com o medo do erro, apenas a evitá-lo. Este comportamento impede a pessoa de se conectar com o aprendizado que poderia ter a partir do erro, com isso, ela se mantém incompetente e, obviamente, temerosa. Se torna dependente, porém, ao mesmo tempo, soberba.

    Isso ocorre porque a fuga mais comum ao medo de errar é criar uma auto imagem onipotente. As pessoas que mais tem medo de errar, em geral assumem frases como: “eu não quis fazer, se eu quisesse, teria feito tranquilamente”, “isso é fácil, nem dá trabalho, vou deixar para depois” ou “eu não me decidi ainda em fazer algo, mas quando me decidir, aí sim, vou fazer bem feito”. Todas essas frases tentam transparecer uma pessoa extremamente capaz e realizadora, que “dá conta do recado”, porém, na realidade apenas camuflam uma personalidade frágil que tem medo de se expor e errar.

    A soberba vem pelo fato da pessoa realizar um investimento de energia nessa auto imagem. Ela tende a se afastar de atividades que sejam mais difíceis, deixar para depois decisões mais complexas e apenas fazer aquilo que sabe que vai conseguir fazer. Outra característica comum é que quando a atividade – mesmo uma que ela domine – exija esforço dela, a tendência é abandonar a atividade. Tudo isso porque cria a premissa em sua mente de que para ela tudo tem que ser fácil, afinal de contas, ela é super poderosa e dá conta de tudo, logo, porque deveria se esforçar?

    Esta soberba, como já afirmei, apenas protege um ego fragilizado que não consegue perceber que é humano e que, portanto, erra. Errar para este tipo de pessoa é se mostrar incapaz e estúpido. Nesta concepção o erro não faz parte de um processo de aprendizado, ele representa a marca do fracassado. Aí está o julgamento moral que deturpa o papel do erro assim como a identidade de quem erra. O medo, não é do erro, mas sim da imperfeição que se apresenta como o fracasso absoluto.

    Assim sendo, medo de errar é medo de ser imperfeito, medo de ser fracassado. A solução consiste em aceitar o fracasso, aceitar a imperfeição. A realidade é que é impossível a pessoa passar pela vida sem erros. Obviamente, ninguém procura errar, porém isso é inevitável, principalmente ao aprendermos algo ou realizarmos algum plano. Emocionalmente e psicologicamente falando, a questão é se perceber de uma maneira diferente. Aprender a se ver como um ser humano imperfeito para que isso não assuma mais um significado de fracasso completo e sim o que é: a natureza da condição humana.

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