• 15 de abril de 2019

    Filhos felizes, pais felizes.

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    – Sempre senti como seu eu fosse um sacrifício sabe?

    – Como assim?

    – Não sei… como se eu não estivesse aqui por mim.

    – Hum, e por quem você estaria?

    – Meus pais eu acho… minha mãe…

    – E qual o sacrifício que você faria por ela?

    – Não sei… [emociona-se] mas eu sinto que eu falhei com ela… que eu precisava fazer algo com ela e não fiz.

    – Algo como o que? Protegê-la?

    – Fazê-la feliz.

     

    “Filho, se você estiver feliz eu estarei feliz”. Uma frase tão comum, tão amorosa e tão poderosa. Ao mesmo tempo uma frase que, longe de qualquer intenção, provoca danos muito severos na mente e coração dos filhos que se tornam responsáveis pela felicidade dos pais.

    Sim, é isso mesmo. A frase acima, esconde, de maneira sutil, uma inversão de papéis entre pais e filhos. Caso o filho seja feliz, o pai também o será, logo, em quem reside a responsabilidade pela felicidade da família? No filho. Mas quem é o responsável pela criança? Os pais. Então temos uma inversão, na qual os responsáveis pela criança a colocam como responsável por eles. A criança, no entanto, é incapaz de satisfazer essa tarefa hercúlea e fracassa. Como isso repercute nela e na família?

    Afirmo que a criança fracassa porque ninguém consegue ser feliz o tempo todo, além disso, se os pais se sentirem tristes por qualquer motivo, a tendência dessas pessoas, mesmo adultas é de assumir a responsabilidade. Agora, se olharmos a repercussão disso é que, em algum ponto, talvez, a criança (ou o adulto) não se sinta mais bem nessa situação e deseje sair disso, mas fará o que? Dentro deste papel que possui só pode dar as costas para a família, mas isso também não trará satisfação.

    Isso porque a criança deseja fazer parte da família. Ela não quer sair de perto. E quando o faz, sente-se perdida. Partindo de uma percepção sistêmica da situação, a pessoa precisa começar dando alguns passos para trás, compreender que ela, na família, é o filho e não o pai. Isso implica em deixar a responsabilidade pela felicidade dos pais com eles e não com ela. O segundo passo é assumir para si os pais enquanto seus pais, ou seja, reconhecer o seu lugar na família novamente.

    Se a pessoa pode fazer isso, ela pode reverter o desejo de “sair” da família. Existe uma diferença entre “sair” ou “abandonar” a família e ir viver sua vida. É a diferença entre o sentimento de “abandono” e o sentimento de “despedida”. O filho que se despede dos pais ao sair de casa é alguém que reconhece a casa dos pais e vai para a sua, ele pode voltar e visitar os pais. Aquele que abandona, larga “a sua casa” (como se ele fosse o dono da casa dos pais) para trás. Ele não pode voltar sem culpa e muitas pessoas preferem morrer a sentir essa culpa e vergonha.

    Se isso é revertido, a missão de ser a felicidade dos pais também é revertida. Ela pode comprometer-se com a felicidade da sua vida. E também poderá ver que isso é uma forma de honrar os pais ainda mais, visto que ela pode ficar apenas com o que lhe é devido e deixar os pais com o que é deles. Nesta situação, todos são honrados de acordo com seu próprio valor. Com isso a pessoa também pode sentir todas as suas emoções sem culpa e ver os pais fazerem o mesmo. Quando não há culpa naquilo que é sentido, pode-se resolver o que causa as emoções e a vida pode seguir seu curso.

     

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