• 24 de abril de 2019

O medo que a vida dá

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– E dai foi interessante porque eu falei com meus pais e me senti bem.

– Que ótimo.

– Depois que eu senti medo só, na hora não.

– E como reagiu a esse medo?

– Não sei, achei estranho… fiquei tentando tirar ele de mim.

– E porque fez isso?

– Não é bom ficar com medo.

– E o que esse medo tem a ver com sua conversa com seus pais?

– Acho que nada, eu me senti bem depois, que nem te falei.

– Sim e depois ainda sentiu medo.

– Você acha que tem a ver?

– Veja, você me dizia que seus pais o impediam de fazer o que quer, certo?

– Sim.

– Agora você conversou com eles e não tem mais nada na sua frente, certo? É só fazer, não é?

– É.

– Como se sente com isso?

– É estranho, mas falando agora com você, senti medo.

 

Muitas pessoas entendem que o medo é um sinal de que não devemos fazer algo, que devemos frear nosso movimento. Porém, há algo no medo que está profundamente ligado com a vida. Dito de outra forma, a vida, até certo ponto, está diretamente relacionada com o medo.

Ocorre que temos uma visão romântica sobre a vida. Pensamos, por exemplo, na vida selvagem como algo belo. E é, e ao mesmo tempo, é horrível: uma caça constante pela sobrevivência, matar ou morrer. As imagens lindas se mesclam com as horríveis e tudo isso faz parte da vida e do viver. Hoje, entendemos a vida e o viver como bens de consumo, queremos criar o “como será a minha vida”, e entendemos que falhamos se o plano não der certo. Porém a vida é algo além disso tudo e o tema da vida e da morte estão sempre presentes, mesmo que nossa tentativa seja de eliminar esses dados da equação.

Assim sendo, de forma geral, não há nada mais saudável do que sentir medo da vida. Em um primeiro momento, não sabemos como será a nossa vida. Antes de nos lançarmos nela, não temos como saber dos resultados. Mas desejamos. Sempre ouço as pessoas me dizendo: “mas eu não posso ter certeza”, colocando isso como um empecilho à vida. Ora, se a falta de certeza é algo que impede a pessoa de fazer algo, ela ficará para sempre impedida de viver.

Aceitar o medo que a vida traz, no entanto, é uma outra atitude. Aceitar que vamos ficar pensando, provavelmente a vida toda, em alguns temas que são indigestos e aceitar isso é uma atitude de aprovação e aceitação da vida tal como é. Quando tentamos tirar o medo da vida, tentamos, na verdade, nos afastar da vida. Queremos ela de uma forma romantizada, mas ela não é assim. Ela abrange tudo. Aceitar é celebrar a vida e isso significa celebrar mesmo aquilo que há de mais horrível nela.

Quando isso se torna possível, o medo da vida deixa de ser um obstáculo, torna-se, então, algo com o que convivemos. Algo que faz parte da escolha de viver. Isso é importante. Pois é possível viver sem escolher pela vida, podemos passar anos desaprovando a vida, negando a vida tal como é, pelo fato de que ela não se encaixa em nossos planos bem traçados dentro de nossas mentes. Mas escolher a vida é escolher também o horror e o medo, o belo e o agradável.

Se você, por vezes, sente medo da vida ou de alguma empreitada, anime-se. Isso é sinal de que você está, de fato, vivo. Você sabe que pode “de verdade” dar algo errado e teme isso. Aceite o medo, aceite o terrível. Obviamente, verifique se pode fazer algo para evitar uma situação assim, mas entenda que não será com base no controle do universo e talvez, não haja nada a ser feito. Aceite os limites da vida e o medo dela e viva a sua vida mesmo quando ela te assusta. Porque ela, muitas vezes, faz isso.

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