• 29 de abril de 2019

Aceitar o passado (tal como foi)

Mulher-abaixada

 

– Sim, consegui dar um abraço na minha criança interior.

– Perfeito… agora tente se despedir dela e voltar para cá.

– Ela me faz uma pergunta.

– O que ela quer saber?

– Eu ainda vou continuar apanhando?

– O que você pode dizer para ela?

– A verdade…

– Faça isso…

– Sim, você vai continuar…

– E continue dizendo para ela sobre o futuro dela, até chegar neste momento, pois mesmo que a vida dela foi como foi para que você chegasse aqui e tomasse esta atitude de acolhê-la.

– Sim…

 

Muitas pessoas querem “trabalhar o seu passado” com uma “agenda oculta”: mudá-lo. É um fato: não é possível mudar os fatos do passado ou esquecer aquilo que nos foi doloroso ou pesado. Porém, existe outra fato: não é necessário que isso ocorra para que a pessoa viva bem. Na verdade, aceitar o seu passado tal como foi é a melhor alternativa para sentir-se bem consigo mesmo.

É óbvio que muitas pessoas vão protestar dizendo o quão horrível foi o seu passado. E, obviamente, eu não nego que já ouvi histórias muito difíceis, realmente aterrorizantes de várias pessoas. Porém, o que ocorre quando negamos o nosso passado? Negamos, parte de nossa história, criamos um conflito dentro de nós entre “ser quem somos” desde que “aquilo não tenha acontecido”, ou tentamos “ser nós mesmos” nos contando uma história que não é a nossa.

Esses são, na verdade, dois tipos de mecanismos de defesa muito comuns quando as pessoas possuem histórias difíceis. Os mecanismos de defesa servem justamente para nos proteger de algo muito doloroso. Porém, ao longo de uma terapia, este tipo de informação começa a vir à tona. Se a pessoa tenta se defender novamente, empaca no processo ou até desiste dele. A aceitação de nosso passado é um instrumento poderoso, pois é o único que pode nos dar as informações importantes para lidar com o que nos aconteceu de forma diferente.

O fato é que quando negamos ou nos defendemos, não olhamos para a história. Nos fechamos ao que há de ruim nela, é verdade, porém as informações que podem fazer a diferença também são perdidas. Aceitar significa, apenas, dar o valor de existência à algo. É dizer: “sim isso existe desta forma e apenas dessa forma”. Logo, aceitar não significa: concordar, ter que mudar, assumir culpas ou responsabilidades, não poder se defender, ter que engolir algo ruim ou achar que seu passado está “certo”. Trata-se, apenas, de aceitar.

O caso acima, por exemplo, nos mostra algo interessante. A pergunta da criança representa uma busca de mudar o passado, porém, ao falar a verdade a pessoa se libera desta incumbência. Ao fazê-lo, pode, então, ver sua história de uma forma ampliada: sim, ela apanhou muito, deprimiu-se durante anos e que, por causa disso, acabou buscando terapia, a terapia estava ajudando-a a fazer mudanças relevantes em sua vida, inclusive a mudança de poder acolher sua própria infância, ainda que dolorosa.

Em outro exemplo, quando um de meus clientes aceitou seu passado, pode ver que seus colegas de turma o repreenderam duramente. Até então ela se dizia: “eu tinha que saber, falei besteira”, porém, ao analisar mais de perto a situação viu que, no fundo, estava se punindo há anos, pela imaturidade de seus colegas de turma. Aceitar o passado lhe permitiu olhar a situação tal como foi e assim, poder avaliá-la de forma nova no presente. A aceitação é a porta de entrada para muitas “técnicas” que podem mudar a nossa vida e nos fazer ir adiante, mas nunca conseguirão mudar o que nos ocorreu.

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