• 19 de junho de 2019

    Nós combinamos tanto!

     

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    – Mas, sabe… eu não entendo o que aconteceu.

    – Porque?

    – A gente combinava muito, era um match perfeito.

    – Como você sabia disso?

    – A gente gostava… ainda gosta das mesmas coisas sabe? Autores, filmes e coisas para fazer.

    – Sim…

    – E então?

    – Qual é o óbvio?

    – Isso tudo não basta?

    – Isso tudo não basta.

     

    Em nossa sociedade de consumo e individualismo, escolhemos pessoas para nos relacionar como se elas fossem produtos de supermercado. A ênfase dada ao que as pessoas fazem, leem e assistem se torna excessiva ao ponto de acreditarmos que se a pessoa tem as mesmas preferências que nós, não tem como dar errado. Ledo engano.

    Isso porque existem muitos outros fatores que devem ser levados em consideração. O primeiro deles é um tapa na cara de muitas pessoas ao longo da relação: preferências podem mudar. Além disso, o que motiva uma pessoa a determinadas preferências, pode ser completamente diferente do que motiva a pessoa com quem tem relação. É possível ler um autor, por exemplo, porque se ama ou se odeia aquilo que ele escreve. O primeiro quer aprofundar, o segundo criticar o autor, parece simples, mas isso se mostra muito importante quando falamos em preferências.

    A motivação a respeito de preferências fala sobre a pessoa que está conosco e não sobre a coisa sobre na qual ela investe atenção. Olhar para a pessoa ao invés de olhar para suas preferências é outro fator importantíssimo. Em uma era cada vez mais virtual, perdemos a prática e o hábito de olhar para as pessoas assim como de considerar essas informações como relevantes. Em um determinado nível, pensamos na palavra “química” para descrever isso. Parafraseando Joseph Campbell, se existe uma “atração entre os órgãos”.

    Porém, olhar para um ser humano não é apenas isso. Algo que as preferências não podem revelar é como esta pessoa se relaciona. É interessante ler a biografia de autores famosos e ver como essas pessoas, na prática, viviam com seus parceiros afetivos. Muitas vezes encontramos comportamentos bizarros. A preferência por algo não revela as emoções que a pessoa sente ao estar com outra, se ela se defende ou se entrega em uma relação, se confia ou é insegura e isso conta muito mais do que se ela gosta ou não de determinado estilo musical.

    Porém, perceber isso não envolve apenas olhar o outro, também significa olhar para nós. Se nos entendemos apenas como um conjunto de preferências, limitamos muito a nossa sensibilidade sobre a nossa vida. Também desconsideramos nossas emoções ficando presos à manutenção de padrões de comportamento e consumo que podem ser confortáveis, mas nem sempre são o melhor para nós. Nos fechamos para sermos descoberto pelo outro e por experiências diferentes que podem se tornar fundamentais em nosso futuro.

    Por fim, é óbvio que é importante olhar e buscar alguém que tenha certa proximidade conosco. Porém isso está muito além de preferências básicas de consumo. Procure por alguém que tenha proximidade no olhar, no toque, no sentir e agir. Alguém com quem você pode discordar e criar uma relação mesmo assim. Alguém que não seja apenas um espelho das suas preferências, mas que existe de verdade na sua frente porque é diferente de você e não sua cópia. A incerteza que o outro nos provoca é, afinal de contas, um dos fundamentos do amar.

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