• 3 de janeiro de 2020

    O problema do controle

    – Mas Akim, eu não consigo entender porque você insiste em dizer que está tudo bem!

    – Ok, vou explicar: você queria que a festa fosse boa não queria?

    – Sim.

    – O que os convidados falaram?

    – Que ela foi.

    – Tá aí.

    – Mas não foi o que eu planejei!

    – Eu sei. E foi bom.

    – Não entendo.

    – É porque na sua mente está a seguinte frase: não foi como planejei, logo, foi ruim. Porém, será que isso é verdade?

    – Hum…

    Nem sempre o que planejamos se mostra a melhor solução. Outras vezes, algo inesperado se torna melhor do que aquilo que planejamos. O desejo de controlar o mundo à nossa volta e concretizar o que queremos tal como queremos existe e é muito arraigando em nós. Porém, a falta de controle e de garantias é que se mostra a verdade de nossa prática. Como lidar com este difícil paradoxo?

    Que não controlamos tudo, todos sabemos. Pelo menos à nível intelectual, é compreensível a ideia de que exitem mais variáveis do que nossa mente é capaz de suportar. Porém, em nossa realidade psíquica, nem sempre a realidade é tão clara. Desejamos o controle. Por este motivo, buscamos criar em nossa mente formas de controlar o mundo e nossa vida. Nem sempre elas funcionam ou são realistas, porém nos mantemos apegados à elas.

    O desejo de controlar como os eventos vão se desenvolver nos faz entender que esta é a única forma possível de termos algo bom para nós. É óbvio que isso não é verdadeiro, porém a ilusão se mantém. O problema, então, com a percepção de perder o controle é que, junto com ela, em geral surgem medos grandes de perdas. A sensação de fracasso e frustração também acompanham o “pacote”, afinal de contas, a pessoa sente que “não conseguiu” dar conta do recado.

    O interessante é que, para muitos, mesmo que tudo termine bem a sensação é de fracasso. O ponto não está no resultado, mas sim, no controle. Confunde-se, neste caso, controle com garantias. A primeira ilusão é que a maneira pensada pela pessoa é a única que fará tudo ficar bem. A segunda é que dará, com certeza tudo bem pelo fato do planejamento. Ou seja, o controle torna-se bom “por si só”. E nada é assim. tudo vem dentro de um contexto e envolve resultados e expectativas. Assim sendo, é um desafio tentar abrir mão de determinar a maneira pela qual os eventos se sucedem e buscar “curtir a onda”.

    Isso não significa não planejar e levar tudo à esmo. Pelo contrário, significa apenas, dar ao controle o seu tamanho adequado e valor proporcional. Não ter controle não significa perder algo, muito menos deixar de ganhar. É importante aprender a lidar com o acaso, pois ele preenche nossas vidas nas mais variadas áreas. Sendo assim, é possível dizer que vivemos muito mais fora de controle do que dentro dele. Contando quantas coisas mudam ao longo de uma semana de vida, é possível ver que é necessário ser flexível.

    Além de flexibilizar na realidade, buscando dar conta de nossas tarefas, é importante flexibilizar na mente e emoções para dar conta destas mudanças imprevistas com um “sorriso no rosto”. Aceitar o acaso não significa deixar de lado foco e atenção. Muito menos planejar. É importante saber para onde desejamos ir, mesmo que seja necessário mudar isso mais tarde. Aquilo que é garantido, nem sempre é o que precisamos. Aquilo que é controlado, nem sempre nos faz tão bem quanto pensamos. Então aprender a olhar para o que acontece ao invés de se entristecer por perder o controle se torna parte de uma vida mental saudável.

    Abraço

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