• 27 de janeiro de 2020

Eu preciso mesmo dar limite?

– Mas e porque eu preciso dizer isso para ela?

– Bem, é o tipo de relação que você dá conta, não é?

– Eu não poderia dar conta de outra coisa?

– Poderia? Seja sincero.

– Acho que não… eu já tentei antes, mas não dá… não tem nada a ver comigo.

– Você tem algo “contra” este padrão de vida?

– Não… não é nada disso.

– Pois é, não é um “preconceito” seu, apenas uma percepção de que você não se sente bem vivendo assim. É algo relativo ao seu bem-estar.

– Sim…

– Por isso precisa. A opção é abrir mão do seu bem-estar. Você escolhe.

“Limites” é um tema complexo dentro da psicologia. Vivemos em uma sociedade que busca, cada vez mais, extinguir a noção de que eles são necessários e, ao mesmo tempo, vemos quanto, cada vez mais a sociedade precisa de limites bem estruturados. Porém, o fato de que antes vivíamos com limites muito rígidos criou uma confusão entre o que é limite e o que é opressão.

Em primeiro lugar, vamos compreender porque os limites são necessários. Note que usei a palavra “necessários”, ou seja, eles não são algo que dá para viver sem, eles fazem parte da vida quer você goste disso, quer não. A necessidade dos limites se dá porque os temos. Simples assim. Isso significa dizer que não conseguimos aturar ou viver tudo ao mesmo tempo. Cada um de nós tem seu “jeitão” de ser e viver e dificilmente damos conta de extremos opostos. Assim sendo, os limites servem para conseguirmos criar relações. A partir deles é que se torna possível estabelecer contato, sem eles, isso não se dá.

Limites são necessários, mas o que são eles? Limite trata das “regras do jogo”. Em outras palavras, limites são uma constatação muito prática sobre como é preciso criar uma relação para que algo seja criado. Por este motivo é que conseguimos perceber diferenças entre limites adequados e inadequados. E a diferença entre limites desejados e não desejados. Ter um limite significa ter uma noção clara de como você funciona e como o mundo funciona, com base nisso é que se criam as regras pelas quais você deseja criar uma interação com este mundo.

O limite é adequado quando ele possibilita que você crie uma relação com o mundo que seja produtiva para você e para os envolvidos, caso existam. O limite se torna inadequado quando essa interação é muito desgastante ou quando o resultado não é atingido. Gosto de lidar com exemplos pessoais, para mostrar que limites não é um tema apenas “social”. A maneira pela qual nos alimentamos, por exemplo, é uma questão que envolve limites: saber quando se está saciado, quais alimentos lhe fazem bem e mal, buscar alimento e preparar alimento. Não podemos comer tudo o que queremos do jeito que queremos a hora que queremos. O organismo não dá conta de ficar o tempo todo apenas seguindo impulsos da mente. Assim sendo, criamos maneiras de nos relacionar com a comida que geram determinados resultados para nós.

O exemplo da comida deixa muito evidente quais “regras do jogo” funcionam e quais trazem prejuízo para as pessoas. Se com a alimentação é assim, nas relações com outras pessoas funciona da mesma forma. Ocorre que tendemos a nos enganar diante dos resultados. A tendência das pessoas é protegerem o padrão de limites disfuncional e negarem seus resultados. Assim, cria-se a ilusão de que “tudo vai melhorar”, sem que eu precise fazer nada. Isso é uma ilusão. É fundamental aprender a viver de acordo com suas regras e saber como deixá-las muito claras para as pessoas.

Por este motivo é que os limites não são opressão, como coloquei acima. Eles tratam de criar algo bom para a pessoa. Eles se tornam opressores quando não o fazem, mas o problema, então não reside nos limites, mas na falta de percepção sobre sua inadequação. As pessoas não são obrigadas a gostarem de seus limites, porém é fundamental que você saiba até que ponto pode e deve adequá-los para criar uma relação e até que ponto não deve. Não há nada de errado em não criar uma relação se ela lhe fizer mal. As regras do jogo geram seus resultados, esta é uma realidade, não fique cego diante dela.

Abraço

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