• 29 de janeiro de 2020

    A falsa auto estima

    – E eu percebi que quando estou de férias, minha auto estima aumenta. O que será que acontece?

    – Sua auto estima aumenta?

    – É, me sinto mais leve, mais alegre.

    – E como sabe que isso é “auto estima”?

    – Ah, é que eu me sinto melhor.

    – Bem, de férias é esperado sentir-se assim, não?

    – Está dizendo que minha auto estima não melhorou nas férias?

    – “Auto” de “auto estima” é uma palavra que diz sobre algo que você gera sobre você. Assim sendo, onde está esta “estima”, em você ou nas férias?

    – Nas férias.

    – Logo é “auto”?

    – Não.

    Muitas pessoas associam estados de alegria e prazer com aumento de auto estima. Isso é um engano. A auto estima é um exercício do ego e não do mundo externo. Em primeiro lugar nem sequer tem a ver com prazer ou alegria, necessariamente por se tratar de uma sensação moral, por assim dizer.

    A auto estima “falsa” é esta que se baseia no externo para gerar sensações internas. Se é algo ou alguém que está lhe trazendo “auto estima”, pare tudo: isso não é auto estima. Elogios não são auto estima, carros, casas, emprego melhor, lipoaspiração, férias ou barriga sarada. As “coisas” em si, não são detentoras do poder de dar auto estima à ninguém. Elas são neutras. Nós damos à algumas coisas poder e status, porém isso nada mais é que uma reflexão nossa. Uma espada na Idade Média era símbolo de grande poder. Hoje em dia, no máximo uma curiosidade (“porque esse cara tem uma espada?”).

    Enquanto você estiver depositando o crescimento de sua auto estima em fatores externos à você, não vai poder se conectar com o que é realmente importante: a construção de sua auto imagem. O foco não é aquilo que se concretizou, mas o potencial para fazê-lo. Em consultório, quando as pessoas começam a amadurecer a noção do que é auto estima, dão relatos parecidos com o seguinte: “eu acabei vendo que não estava fazendo o que eu precisava, mas perceber isso foi muito bom. No dia seguinte, fiz errado novamente, mas logo percebi e consegui frear o impulso”. Este relato é algo simples, porém muito forte: desenvolvimento de auto percepção, honestidade consigo e auto valorização. Princípios fundamentais para uma boa auto estima.

    É algo que pode parecer frustrante para muitas pessoas, mas auto estima nada tem a ver com beleza, por exemplo. Assim sendo, aquela sensação que muitas mulheres e homens tem na frente do espelho ao se arrumarem pode ser muitas coisas, mas não auto estima necessariamente. O fato  que pode ser um motivador para auto estima é a energia empregue para cuidar-se. Porém isso vai muito além da forma física. É com esta energia que é importante entrar em contato para gerar verdadeira auto estima. A falta de contato com ela pode fazer (e faz) muitas pessoas “vítimas” (pois são vítimas voluntárias) de mil e uma propagandas, sejam elas propagandas altamente comerciais ou disfarçadas do “verdadeira estilo de vida”.

    A conexão com nossa capacidade de criar comportamentos, pensamentos e ações que nos levam para aquilo que é realmente importante para nós é aquilo que nos traz boa auto estima. Conheço muitas pessoas que fazem um monte de coisas, porém, sem ligação com sua essência. Sua fala sempre retrata uma falta, um buraco que não é preenchido nunca. O motivo é simples: executar várias tarefas não traz boa auto estima, executar aquelas que lhe são fundamentais, sim. portanto, não basta fazer e fazer, é fundamental que este fazer seja conectado ao essencial.

    Por este motivo é que o mundo externo não é fonte de auto estima. É algo bem mais complicado. Não existem receitas que, se você seguir, terá uma boa auto estima. É necessário olhar mesmo para você e enfrentar aquilo que você realmente deseja. Sem isso, não há auto estima. Não tem como ter. Portanto, deixe um pouco de lado suas conquistas e “coisas” e reflita: o que de fato é fundamental para você? O que, de fato, faz sua alma sorrir? O que lhe faz sentir-se competente para viver sua própria vida? Auto estima, no fundo é saber-se capaz de sanar as próprias necessidades e criar uma vida boa para si. Nada de “super hiper”, não é mesmo? Não, realmente não é. Isso se dá porque uma das características mais interessantes e surpreendentes da boa auto estima, para qual a maior parte das pessoas torce o nariz é a simplicidade.

    Abraço

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