• 31 de janeiro de 2020

    Noções de independência

    –  É que eu preciso da minha independência

    – Que imagem aparece na sua mente quando você pensa em independência?

    – Ah, fazer o que eu quero sabe? Tipo não ter que ficar dando satisfação, fazer o que me dá na telha!

    – Entendo. O que mais?

    – Como assim?

    – Eu quero fazer um monte de coisas que não faço, por exemplo. Como você lida com isso?

    – Ah… não entendi. Você não faz porque não quer.

    – Não posso, não quero, não devo. Essas palavras fazem parte daquilo que você chama “independência”?

    – Não sei, acho que não… nunca pensei nisso de verdade.

    – Então vamos pensar.

    A palavra independência, parece ser entendida como onipotência. Tornar-se independente, não significa tornar-se capaz de fazer tudo o que quer, mas sim ser capaz de sustentar-se sozinho. É como ficar de pé sem ajuda dos pais: não garante que você vai para algum lugar específico, apenas que poderá ficar em pé sozinho.

    Porém as concepções que nutrimos acerca da independência fazem com que as fantasias criadas ao redor dessa palavra sejam as mais ousadas possíveis. Ousadas, porém infundadas. Isso cria muita tensão entre aqueles que aspiram à independência e aqueles que a possuem. Também gera muita frustração naqueles que perseguem a meta, por não verem muitos de seus “sonhos” se tornarem realidade. É importante compreender adequadamente os limites da independência para que as expectativas sejam mais adequadas ao real.

    Ser independente em nada tem a ver com fazer tudo o que você quer. A independência não tem a ver com o “querer” e sim com as “necessidades”. Assim sendo, ao contrário do que pensam as pessoas, independente é aquele que consegue sustentar-se sozinho em suas necessidades. É óbvio dizer que por “sozinho”, queremos dizer alguém que gera renda suficiente para manter suas necessidades, afinal de contas ninguém é “sozinho” no mundo. Precisamos dos outros para nos manter e isso é outra lição aprendida por quem se torna independente: você precisa dos outros.

    Independência também traz o custo da responsabilidade. Ou seja, o custo que nossas necessidades tem precisa ser respeitado assim como a maneira pela qual conseguimos suprir com este custo. Logo, longe de se tornar “livre de todas as amarras”, a pessoa independente se torna ligada profundamente com aquilo que faz para se manter. Assim sendo, precisa seguir as “regras do jogo”. Se antes ela tinha um pai ou mãe que le impediam de fazer algo, agora ela precisará fazer isso sozinha.

    Caminhar pelas próprias pernas também significa conseguir manter este estado durante sua vida. Em outras palavras, não dá para ser independente apenas três meses por ano. Não se trata de escolher um estilo musical para depois trocar por outro, esta é uma necessidade biológica. Os organismos não crescem para se manter dependentes, mas sim para compartilhar sua autonomia com os demais, criando grandes cadeias de interdependência. Perceber isso, é outro fator importante para o “candidato” à independente.

    Por fim, vale dizer que isso não é apenas sobre dinheiro ou recursos, mas sim, uma questão psicológica. Quando dizem que “homem não chora”, a frase precisa ser entendida em sua metáfora mais profunda. A criança quando tem um problema chora. Ela o faz para chamar a mãe ou o pai para resolver o problema para ela. O adulto autônomo não se permite esta mesma facilidade. O adulto não chora implorando aos outros que resolvam seus problemas. Se ele precisa de ajuda de alguém, ele pede, ciente do que isso significa. Porém o fará apenas quando realmente precisar. Tornar-se independente é esta mudança na mentalidade, que ao invés de focar nos outros para resolver seus problemas foca em si.

    Abraço

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