• 5 de fevereiro de 2020

    A culpa que protege

    – Me sinto muito mal com isso.

    – Culpada?

    – Sim.

    – Do que sua culpa está protegendo você?

    – Como assim?

    – Olhe: você fez ativamente alguma coisa para seu pai estar sofrendo o que está sofrendo?

    – Não, pelo contrário, eu ajudei ele várias vezes.

    – Pois é, logo “culpa” não é uma emoção que está adequada. Ele fez, não você. Sua culpa está servindo para outro fim, qual seria?

    – Não sei…

    – Sabe sim… mas é muito difícil para você dizer ou sentir isso.

    – Dizer o que?

    – Olhe para seu pai sem a culpa, o que você vê?

    (Ela chora)

    – O que você vê?

    – Uma pessoa que não quer se cuidar. Não adianta querer cuidar dele… ele sempre faz as coisas erradas.

    – É mais fácil olhar para isso ou para sua culpa?

    – Acho que preferi a culpa até hoje.

    O sentimento de culpa nem sempre é verdadeiro. Ela surge quando violamos algum preceito moral que decidimos seguir. Assim sendo, nos sentimos culpados para ficarmos atentos ao fato de que nosso comportamento não é coerente com nossas premissas de vida. Porém, alguma vezes a culpa surge apenas para evitar que olhemos para algo muito duro e difícil.

     A culpa é uma emoção poderosa sua função é nos fazer rever nossos atos. Quando isso está alinhado com comportamentos adequados e produtivos, a culpa é uma emoção muito positiva. Porém, quando a culpa nos faz ficar presos a destinos que não são nossos ou a buscar cumprir algo impossível, ela se torna inadequada. Nos mantemos diante desse impasse porque a realidade é, muitas vezes, difícil de ser encarada. Assim sendo, preferimos a ilusão de que algo pode ser feito do que encarar o destino que nos coube (ou que coube aos outros). A tristeza é uma das emoções que buscamos evitar com a culpa.

    Algumas pessoas preferem sentir a culpa do que a tristeza porque, embora a culpa seja uma emoção dolorosa, ela ainda mantém a pessoa no controle da situação. Sentir-se culpado nos faz crer que temos influência em certos eventos, assim sendo, tudo é uma questão de fazermos a “coisa certa”. É muito difícil em várias situações e em relação à determinados desejos e necessidades admitir que não há nada para fazer. Esta atitude, além de nos colocar frente à frente com nossa tristeza, também nos coloca diante da impotência que temos diante de alguns fatos da vida. É como no caso acima. Ao invés da pessoa conseguir lidar com a tristeza de ver que seu pai não cuida da saúde, prefere sentir-se culpada, como se tivesse que cuidar melhor do pai ou fazer algo para ele. Este sentimento a coloca em um papel “ativo” no destino do pai (e de seu próprio), porém este papel é apenas uma doce ilusão.

    A raiva é outra emoção que pode ser escondida através da culpa. Isso ocorre de forma habitual com pessoas com dificuldades em impôr limites. Assim sendo, elas percebem que algo está errado. Alguém ou alguma situação está lhe prejudicando e a pessoa tem dentro de si o desejo de não se prejudicar. Ela sente raiva da pessoa ou da situação. Esta raiva está adequada no sentido que visa organizar na pessoa os comportamentos para se proteger. O sentimento de raiva, faz a pessoa imaginar as ações que deveria ter para se proteger e aí surge a dúvida sobre fazer isso de fato ou não. A pessoa recua, mas o que fazer com a raiva e as percepções de que as coisas não estão boas? Melhor sentir-se culpado de estar pensando tão mal do mundo ou da pessoa específica do que agir. E então surge a culpa: “como você pode pensar isso dele?”, “você fica reclamando, mas tem gente em situação pior que a sua”.

    É difícil, porém, quando se torna possível olhar para aquilo que realmente nos incomoda, conseguimos criar uma atitude adequada para lidar com as situações e com a nossa vida. A culpa não pode ser considerada como “humildade” quando está apenas ocultando nossos reais sentimentos. Neste caso, ela apenas está servindo como uma proteção contra nós mesmos. O melhor a fazer é buscar coragem dentro de si para afirmar aquilo que realmente estamos sentindo.

    Abraço

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