• 7 de fevereiro de 2020

Quanto tempo demora?

– Mas Akim, até quando vai isso?

– Não sei ao certo, mas podemos imaginar um pouco.

– Como?

– Ora, faz quanto tempo que você está lidando com isso?

– Bem… já faz uns quatro meses que estamos neste tema.

– Quantos avanços já ocorreram?

– Bem… já ocorreram alguns, eu sinto que temos uns 40% resolvido até aqui. E foi difícil até então.

– Sim… gostei dos 40%. Ótimo, então nestes quatro meses, você veio até aqui. Consegue olhar para frente e entender mais ou menos que isso vai levar mais uns 6, pelo menos?

– Mas é assim? Matemático?

– Não. Talvez possa ser bem menos ou talvez mais. O fato é se você está olhando para o tempo que usa para lidar com cada parte do seu problema. Tem feito isso?

– Não, deveria?

– Bem, se o tempo é algo importante para você, poderia ser um bom aprendizado.

Quanto tempo demora para algo mudar em mim? Acredito que esta pergunta é feita (consciente ou inconscientemente) por toda pessoa que faz terapia. Mesmo que ela não se preocupe com o tema, ele surge. Falar sobre o tempo que as mudanças levam para surgir é um fator importante para aprendermos a nos conhecer, afinal, o tempo existe e nós vivemos dentro dele.

Para começar a falar do tempo, é importante notar que existem alguns aspectos importantes sobre ele. Em primeiro lugar, mesmo na física sabemos que o tempo é relativo. Assim sendo, temos o tempo do relógio, que tem como medida os segundos. Também se pode falar de um tempo psicológico, que é a sensação de tempo. Aqui coloca-se a noção que a pessoa tem sobre o tempo do relógio e a sensação interna do tempo. A primeira tem a ver com a conexão que a pessoa tem com o tempo do relógio, ou seja: se a pessoa é do tipo que “sabe que horas são” mesmo sem ver o relógio ou se é completamente desligada disso. Essa característica varia de pessoa para pessoa e até mesmo de momento para momento. Quando estamos cansados é comum sentir que o tempo do relógio passa mais rápido que o normal.

O segundo “tempo psicológico”, que é a sensação de tempo, tem a ver com a maneira pela qual a pessoa vivencia o tempo de seus próprios processos internos. Por exemplo, diante de um rompimento afetivo, durante as primeiras semanas de luto, algumas pessoas dizem sentem como “se fizessem anos” que ela está nisso, outras sentem como “se o tempo não passasse” e algumas sentem que tudo “está rápido demais”. O processo é o mesmo, porém a sensação de tempo em relação à este processo é diferente. Isso é muito importante porque a sensação de tempo diz respeito aos valores da pessoa e, também, do quanto ela se conhece.

Todos temos um tempo para uma mudança. Conhecer-se implica em saber desse tempo também. Este saber não é pautado na expectativa: “queria resolver isso logo”, mas sim na experiência: “eu sei que vai tomar uns três meses até eu digerir isso, mas vai dar”. É possível criar uma resposta pessoal de “Quanto tempo vai levar para…?” se você estiver atento aos seus processos e ao tempo que usa para cada um deles. Isso não significa que você vai ter o tempo que quer, mas sim o tempo que precisa para resolver seus problemas. O auto conhecimento envolve entender o tempo interno e não o tempo desejado ou externo. Cria-se a ligação entre estes dois “tipos” de tempo a partir dessa sabedoria, mas sabe-se, logo de cara, que eles são de naturezas distintas.

Assim, conhecer o seu tempo de mudança acaba tornando-se parte do processo de auto conhecimento e não algo externo, pré dito pelo terapeuta: “para vencer essa depressão, você vai levar uns 6 meses”. Embora existam pesquisas que nos deem noção de tempo, é muito mais enriquecedor para a pessoa aprender a olhar sozinha para isso. Até porque o tempo também leva em consideração vários fatores que podem mudar. Uma mudança de hábito, por exemplo, pode ser algo mais rápido e simples para uma pessoa solteira que precisa atender apenas as próprias necessidades. Já uma pessoa casada e com filhos, que precisa lidar com muitas demandas, precise de mais tempo para conseguir organizar uma simples mudança de hábito.

Porém, algo é comum. O “tempo” está sempre relacionado com o envolvimento da pessoa com “a causa”. Seja vencer a depressão, lidar com um rompimento afetivo ou mudar de hábitos, o envolvimento da pessoa com tudo o que envolve a solução é diretamente proporcional ao tempo que ela vai usar para mudar. Em geral, um envolvimento adequado faz os processos ocorrerem mais rapidamente. Porém excesso de comprometimento atrapalha. É sempre importante agir, ter envolvimento, mas não exagerar. Como saber a diferença? De forma simples, pode-se dizer que quando o envolvimento está em um nível “bom”, a pessoa se empenha, mas sabe quando é a hora de parar e relaxar, deixar a mente repousar um pouco. Isso é comum em pessoas que lidam com criação. Em geral, elas se debruçam durante horas em cima de um tema, pesquisam inexoravelmente ele durante um bom tempo, logo depois, soltam, param e vão fazer outra coisa. Fecham as portas e deixam a mente livre. Essa variação entre atividade com alta intensidade e relaxamento é um bom ponto de equilíbrio.

Abraço

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