• 12 de fevereiro de 2020

    Você não é o dono de sua vida

    – Mas é o que eu quero fazer, Akim.

    – Entendo. Não tenho nada contra isso, e mesmo que eu tivesse você vai fazer o que acha que deve fazer.

    – Exato.

    – Estou chamando sua atenção para os seguintes fatos: você já fez isso antes e você mesmo me disse que não deveria ter feito, segundo: você está de forma muito clara sentindo um “desejo sei lá de onde” de fazer outra coisa, não é?

    – Sim.

    – É só isso que eu gostaria que você olhasse. Não é para se comprometer com isso, ou achar que “eu quero que você não faça isso”, apenas olhe para essas percepções e sensações que você está tendo.

    – Entendo… mas eu não gosto de olhar para isso.

    – Sim, eu imagino. Consegue imaginar porque não?

    – Sim. É porque isso não é o que eu quero fazer…

    (Fico em silêncio)

    – mas sinto que é algo importante de ser feito…

    Nosso comportamento é moldado, em parte pelas perspectivas que assumimos sobre o mundo e seu funcionamento. Em nossa cultura é comum atribuirmos ao “eu” a característica de “dono” da “vida”. Porém, será que essa característica realmente pode ser atribuída ao “eu”?

    Essa é uma questão filosófica e aberta ao debate, obviamente. Porém esta pergunta leva em consideração uma revisão da percepção de livre arbítrio que vem se estruturando desde a teoria da evolução de Darwin. Afirmar que o “eu” (ou seja, aquilo que chamamos de eu, a imagem com a qual nos identificamos) é “dono” da vida, teria como uma consequência o fato de ele poder mandar na vida. Porém, não temos controle completo e direto à inúmeros processos do nosso corpo (envelhecer é um deles, por exemplo). Além disso, sendo “dono” da vida, a pessoa poderia executar trocas com ela, por exemplo. Poderia dar um pouco de sua vida para outra pessoa que precisasse dela e, depois, receber isso em troca novamente. Também não temos este poder.

    Uma perspectiva alternativa é que o “eu” não é dono da vida. Ele acaba se sentindo dono da vida, mas no fundo apenas a serve. É óbvio que isso pode gerar muita confusão. Mas nesta perspectiva, a vida ocorre e o “eu” nasce a partir da vida e não em paralelo com ela. A vida é maior do que o eu, embora o eu assuma o controle de muitas funções para que a vida possa florir. É como o cérebro. Muitos entendem o cérebro como aquele que manda em tudo, mas ele é mais um organizador do que um comandante. Ele não tem a autonomia para “fazer o que quiser”, precisa seguir os ritmos e regras do corpo, senão tudo sucumbe.

    A pessoa que achamos que somos não é o ator mais importante. A vida dentro de nós que é quem dá substância à este ator é o fenômeno mais importante. Ao nos identificar com este papel a mudança de paradigma é gigantesca. A conexão e harmonia com os processos da vida se tornam mais importantes do que os desejos do “eu”. Não é que se tornar avesso ao que se quer, mas alinhar aquilo que o “eu” quer, com a evolução da vida dentro de si. A partir disso, muita beleza pode ser criada.

    Se entendemos que a vida é dona do eu, nossa auto importância muda. Assume um contorno mais adequado do que este que nossa sociedade atualmente nos oferece. O eu continua sendo importante, porém, o é enquanto mantém a vida andando. Se o eu faz algo contra a vida (e temos inúmeros exemplos disso ocorrendo hoje), ele não estará mais sendo “adequado”, nesta perspectiva. Não se trata de encontrar um agente social que policie isso, mas sim, de uma nova perspectiva sobre a maneira pela qual levamos a vida.

    Nathaniel Branden, autor sobre auto estima, evidenciou que nos EUA e na Europa, a auto estima foi levada como um fim em si mesma. Isso apenas está fazendo com que as pessoas se tornem egocentradas o que, paradoxalmente, acaba com a auto estima e hipervaloriza pequenos problemas. Talvez se nosso foco recaia sobre a vida como um todo e não como a exaltação de qualquer micro desejo (ou impulso) do “eu”, possamos reverter este quadro e criarmos uma sociedade com uma auto estima verdadeira, a qual, diga-se de passagem tem como um de seus pontos fundamentais o sentimento de adequação à vida.

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