• 28 de fevereiro de 2020

    Eu não quero isso!

    – E eu fico muito braba comigo.

    – O que te deixa braba?

    – Ah, isso! Eu já tomei uma decisão e daí fico me sentindo assim.

    – Esse sentimento “atrapalha” a sua decisão?

    – Sim, é isso que eu sinto.

    – Então, não era para ele estar aí, certo?

    – É. Sabe, eu sei o que eu quero. Porque eu sinto isso então? E eu estou agindo, decidi e estou fazendo.

    – Perfeito. E se fosse possível aceitar esse sentimento, mesmo que ele seja aparentemente contrário ao que você quer?

    – Não sei… não quero isso.

    – Eu sei que não, mas isso está aí. Este é o fato.

    – Sei lá… talvez se eu aceitasse…

    – O que?

    – … sei lá, poderia ver algo talvez?

    – Quem sabe? Vamos olhar isso mais de perto?

    Somos uma sociedade de consumo. Isso significa que conscientemente ou não acreditamos no mote: “o cliente tem razão”. Acreditamos que nossa mente e emoções devem nos servir tal como um garçom nos serve. Então é muito difícil quando se “sabe o que quer”, mas algo em nós não “obedece” esse desejo. O que fazer nesses momentos?

    O que boa parte das pessoas fazem é negar isso. Seja um pensamento, sentimento ou vontade de agir, a tendência é negar, empurrar para longe. ao criar conflito com aquilo que exite, criamos um imenso problema para nós, pois começamos a brigar contra a realidade. Esta luta é sempre perdida, pois, na melhor das hipóteses retiramos o incômodo da consciência, mas isso continua operando em nós. Outro problema é que a informação contida naquilo que nos incomoda fica inacessível à consciência e pode, paradoxalmente, ser exatamente o que precisamos.

    O problema do mote “o cliente tem razão”, é que nos faz entender que aquilo que queremos é sempre o melhor para nós. Não é. Nem sempre temos razão, na verdade, em vários casos nos perdemos atrás de nossa razão e causamos mais danos do que benefícios em busca de “sermos certos”. Há uma diferença entre aquilo que queremos e o que precisamos. saber distinguir isso é fundamental. Outra distinção importante é de que nem sempre aquilo que queremos ocorre tal como pensamos.

    A pergunta é: no que se baseia aquilo que desejo? Hoje é quase uma constante que o desejo esteja vinculado à impulsos ou demandas sociais que não levam a pessoa em consideração. Este tipo de “querer” não ajuda. O desejo também pode estar a serviço da negação ou o medo da realidade: “não quero ver isso”. Isso também não ajuda. Apenas quando o desejo está vinculado à pessoa naquilo que ela tem de essencial é que ele pode ser produtivo. Neste caso, há uma relação entre aquilo que é fundamental para o bem-estar da pessoa e aquilo que ela quer.

    A segunda distinção é importante porque aquilo que é desejado, mesmo estando em harmonia com a essência da pessoa, pode ser imaginado de uma forma que não se realiza. Ou seja, a pessoa quer algo de uma determinada maneira, mas esta “maneira” não é realista (e muitas vezes a pessoa nem tem como imaginar isso). Assim sendo, é importante nos entregarmos ao processo tal como ele vem. Aquilo que não esperávamos, muitas vezes é exatamente o que nos faz crescer.

    Então, percebemos uma hierarquia: em primeiro lugar vem o real, aquilo que existe. Não importa a sua opinião sobre aquilo, se algo surge, é importante de alguma maneira. É uma informação. O fato de não gostarmos ou acharmos que isso será contraprodutivo é menos importante do que a pergunta: para que isso está aí? Esta pergunta, no entanto, deve ser feita com respeito e não com desdém. É uma abertura à algo que surge quando me coloco no caminho de buscar o que desejo. Sem isso, a aventura não pode começar, pois já a negamos de antemão. Aventure-se.

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