• 18 de março de 2020

Reflexões sobre o ato de se julgar

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– E daí me senti muito mal comigo.

– O que te fez sentir-se mal?

– Ah, eu sabia que não deveria ter feito o que fiz, mas… mesmo assim… fiz, né?

– Sim. E o que te fez sentir-se mal?

– Ah, isso! Eu não devia ter feito isso.

– Porque não? Há algo de errado com isso?

– Sim, falamos tantas vezes aqui sobre isso Akim!

– É que eu estou confuso, porque não estou conseguindo ver onde isso que você fez te causou algum dano, nesta situação.

– É… se eu for pensar bem, eu não falei nada, não me impus, mas também…

– Também?

– Não foi necessário, eu acho.

– Sim.

 

É comum julgarmos nossas ações. Criamos em nossa mente listas de “pode x não pode” e tentamos seguir essas listas. Porque fazemos isso? Este comportamento, de fato, nos ajuda a conseguir algo para nós? Há limites muito importantes na temática do julgamento que precisam ser vistas para que ele possa nos servir de alguma maneira ao invés de nós servirmos à ele.

O julgamento está ligado à moral. Ao julgarmos algo, criamos uma separação. Este é ponto importante de ser percebido. Ao dizermos “bom e mal” separamos aquilo que vemos, damos nomes ao fenômenos e lhes damos um lugar. Todos fazemos isso. Não se trata de conseguir “não fazer”, isso não é possível, pois vivemos em um mundo onde essa moral é necessária e importante. A questão está em tomar consciência deste ato de distinção. Criar consciência sobre como separamos as “coisas do mundo”.

Essa consciência é importante porque tudo aquilo que separamos, tendemos a excluir de nossa percepção. Isso não significa que aquilo que foi separado não seja importante. Podemos não ver a função daquilo, ter medo ou achar que é “errado”, isso, porém não fere a natureza daquilo que é excluído. De outra forma: você pode não gostar de sentir fome, a fome continuará existindo. Porém ao dizer: “não gosto de”, “acho errado”, “acho mal”, negamos a existência e não nos relacionamos com aquilo. Ao não nos relacionar, perdemos.

Porque perdemos? Porque todas as informações que podem estar além daquilo com o que nos identificamos ficarão perdidas. E existem informações. Mais importantes do que podemos imaginar. O exemplo da tradição cristã: “atire a primeira pedra aquele que nunca pecou” nos faz pensar sobre isso. Os homens julgaram a “adultera” e queriam excluí-a. Qual a lição que Cristo dá? Bem, se vamos excluir os pecadores, vamos olhar para todos os pecadores. E então, todos olham para si e se identificam com aquilo que queriam excluir. Aprendem mais, se tornam mais ricos. Tomam para si aquilo que queriam excluir.

O fato é esse. Tudo aquilo que excluímos de nossa consciência é necessário para a vida. Poderia falar em termos das coisas do mundo, mas vou falar apenas sobre o intrapsíquico. Aquilo que nego em mim, é o que não aprendo sobre mim. E então excluo da minha própria consciência esta informação. Me torno mais pobre e mais rígido. Se aceito aquilo que eu considero como pecado, mal, errado, posso me relacionar com isso. E então aprendo algo sobre mim mesmo que nunca poderia aprender se continuasse querendo me ver apenas como um ser “bom”.

Tal como os homens que deixaram as pedras para ficarem com o conhecimento de si, também o fazemos nós quando aceitamos mesmo aquilo que não queremos. Julgar algo como “ruim” é apenas um julgamento. Não faz a coisa ruim “de fato” (se é que isso é possível). Perceber isso nos faz olhar para aquilo que julgamos tal como é. E assim, citando Joseph Campbell: “onde você achava que precisava matar um monstro, descobre que precisa matar a si mesmo”. Ou seja, destruir  a sua percepção pequena e limitada de mundo e abrir-se à algo muito maior. Nem sempre fácil de digerir, porém, sempre mais sábio.

 

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