• 1 de abril de 2020

    Encontrar a beleza

    – Mas eu não me acho bonita.

    – E o que te faz saber que não é bonita?

    – Ah, eu vejo as meninas da escola e eu sou diferente delas!

    – Sim.

    – Tá vendo? É isso. Eu não sou bonita.

    – E o que é bonito nas meninas da tua escola?

    – Ah, elas são altas e tem um cabelo mais cheio que o meu e tem mais corpo… sabe?

    – Sim. Percebe que quando você fala delas, você, na verdade, está falando de algumas características delas?

    – Como assim?

    – A altura, corpo e cabelo. É isso que você acha que as faz mais bonitas que você.

    – Sim.

    – Então percebe que não são “elas” como um todo, mas algumas “partes” delas que você olha e não vê em você igual à elas?

    – Sim.

     

    Tratar o estético como algo secundário é negar seu profundo impacto em nossas vidas. Ao mesmo tempo, tornar-se escravo de padrões estéticos culturalmente criados faz com que a crítica e a ansiedade se instalem em nossos corpos, negando nosso envelhecimento natural e a estrutura com a qual nascemos. Como olhar para este dilema?

    Se eu fosse dar um conselho, seria: aprenda a ver a sua beleza em você. Mas como fazer isso? A questão é que a beleza é inicialmente vista naquilo que não sou eu. Antes da invenção do espelho, como alguém sabia que era belo? Geralmente pela perspectiva de terceiros. Eu só poderia saber que meu olho tem determinada cor se alguém me falasse isso. As águas foram nossos primeiros espelhos. A questão da beleza é tão importante que desde os primórdio buscamos formas de nos ver, exatamente, porque vemos os outros e as coisas do mundo e nelas, apreciamos a beleza.

    Portanto, nossa primeira fonte de diferenciação entre o que é e o que não é belo é a comparação com aquilo que vemos. Temos definido o que é belo fora de nós antes de ver em nós. E então tentamos encontrar em nós aquilo que vemos no que consideramos belo. Se encontramos, alegria, se não, tragédia. Se somos muito diferentes, tragédia das tragédias. O exercício de buscar aquilo que é belo em nós envolve uma alta dose de coragem para inverter um processo natural: olhar primeiro para si e buscar em si algo que nos chama a atenção.

    Em geral, também olhamos para partes dos outros. Quase nunca vemos o todo, vemos partes: cabelo, olhos, altura, tamanho de braço, tronco, seio e julgamos essas partes como “belo” e consideramos o restante “todo” belo por tabela. Então não precisamos “ser belos”, precisamos encontrar “o que é belo” em nós. É isso o que os outros também vão ver. Pessoas que se apaixonam sempre relatam isso: foi o sorriso dele, o jeito dela andar, o movimento dos cabelos, o formato do tronco. Quase sempre são partes e não o todo. Quando aprendemos a ver isso em nós, é quando aprendemos a ver a nossa beleza.

    Sair da comparação é um passo fundamental. Não se trata de tapar o sol com a peneira: a “competição” existe, e isso é o que torna eu saber de eu mesmo tão importante. Se eu não souber, como vou mostrar isso? Como vou enaltecer isso diante dos outros? E o pior: como vou apreciar a minha própria beleza? Longe de cair sobre um efeito de Narciso, que ficou se enamorando até a morte ao ver seu reflexo no lago, a ideia é aprender a sentir, a partir de nossa percepção o mesmo que sentimos quando vemos alguém ou algo belo.

    O sentimento de beleza não é importante apenas pelas relações sociais. Aquilo que é belo em nossa espécie assume características de simetria e construção visual que agradam e acalmam os sentidos. O belo também move nossas emoções de maneira saudável, assim, o simples fato de estar num lugar que consideramos belo nos ajuda a tranquilizar a mente. Quando percebemos a beleza em nós, isso nos ajuda alcançar paz em relação à nós mesmos. A percepção de simetria da qual surge a sensação de belo nos acalma e tranquiliza. Então perceber nossa beleza nos ajuda a ser quem somos.

    Abraço

     

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