• 22 de abril de 2020

    Os pássaros do ninhos vazio

    – Eu não sei o que acontece direito sabe?

    – Não sabe?

    – Não… é como se eu… quero mas não quero ir lá entende?

    – Sim, mas vamos aprofundar. Pense em um dia em que você “realmente” quer ir lá.

    – Tá.

    – Agora pense nesses dias em que você “não sabe”.

    – Ok…

    – Qual a diferença? Preste atenção aos sentimentos que você tem.

    – Hum… é estranho até de dizer… parece que se eu me sentisse em alguns dias… meio que obrigado a ir… mas não sei se é isso.

    – Se você não vai num desses dias, como se sente?

    – Já aconteceu… me sinto mal, como se tivesse feito algo errado.

     

    Quando falamos em “síndrome do ninho vazio” é importante olhar para os pássaros que voam (ou tentam) desse ninho. O ato de sair do ninho não tem a ver com uma localização espacial nova, mas sim com uma atitude psicológica na qual a pessoa, ao invés de “sair do ninho”, voa em direção à sua nova vida, em busca do seu novo ninho.

    Em geral, as pessoas pensam no “ninho vazio” no momento da saída dos filhos para o mundo. O fato, porém, ocorre mesmo antes do nascimento das crianças. Quando o casal precisa dos filhos para se manter unido é muito difícil que uma estrutura de ninho controlador não ocorra. Assim sendo, os “filhotes” são criados desde o começo para não irem para o mundo, ou para se sentirem mal, de alguma forma ao fazê-lo. A autonomia é desencorajada e se passa a compreender que sair é ruim, ficar é bom.

    Um confusão comum que os filhos de ninho vazio sentem  quando começam uma nova família ou quando vão morar sozinhos, é sobre quando devem ir à casa dos pais. Em geral, eles tem uma assiduidade muito grande e tendem a olhar para o “lado bom” da vida com os pais: comida gostosa, companhia e ambiente aconchegante. O discurso gira em torno de “porque eu não iria lá? Tem um monte de coisas que eu gosto”. Porém este discurso esconde algo sutil: a lei de retorno.

    Esta lei – eu a chamo assim – dita que os filhos tem que estar com os pais afim de mantê-los felizes e bem. Se os pais tiverem problemas ou sentirem-se mal de alguma forma, os filhos automaticamente se culpam ou sentem que precisam fazer alguma coisa. Porém, estes sentimentos apenas ocorrem com a distância, ou seja, os pais terão problemas se o filho sair ou se o fizer de uma maneira que os pais desaprovam. Então a pessoa sente-se mal em estar indo buscar sua vida, pois sabe que deve algo aos pais.

    Desta forma, a pessoa não sabe ao certo se vai ver os pais porque realmente quer e está com saudades – o que seria o “saudável” – ou se vai porque “tem que ir”. É fácil de perceber isso se a pessoa “não vai”, ela logo sente-se culpada ou com o sentimento de que fez algo errado. Se ela tem uma relação saudável, não ir à casa dos pais não significa algo ruim, é apenas uma escolha. Escolhe-se ir porque quer e não ir porque quer fazer outra coisa e ambas as situações podem existir de maneira tranquila.

    Assim, o grande desafio para os filhos do ninho vazio é aprender a perceber esta lei que os obriga a ficar no ninho ou ter que voltar para ele sob pena de punição. Quando se percebe isso, se torna mais fácil perceber quando existe um desejo de fato em ver os pais – o que é normal e saudável – de quando nos sentimos obrigados a fazer isso. Com o tempo é possível se desvincular dessas ideias e passar a entender que sair do ninho não é algo ruim e que os pais, além de pais são um casal e que somente eles podem fazer algo com isso. Não é abandono, mas sim limites adequados, um tema também difícil para o ninho controlador.

     

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