• 3 de junho de 2020

    A coragem de dizer: “me amo”

     

    – Eu não sei o que tem de errado comigo.

    – Me diz uma coisa, você daria conta de se sentir bem contigo mesmo?

    – Não.

    – Pense bem nesta resposta.

    – Não… eu acho que eu não daria.

    – O que te motiva a dar esta resposta?

    – Não sei direito… mas eu não consigo me imaginar dizendo que gosto de eu mesmo, por exemplo…

    – Entendo. Pensando nisso, você realmente acha que se conquistar este novo emprego, isso irá mudar?

    – Pensando bem… acho que não… no começo, talvez… mas dali a pouco vou querer outra coisa.

     

    Atualmente confundimos as conquistas que executamos na vida com a vida em si. Acreditamos que existir é o mesmo que alcançar metas e que se o fizermos nos sentiremos bem com nós mesmos pelo que somos. Este engano além de prejudicar muitas pessoas também nos afasta de ver como é simples amar a si (e o quanto isso não tem a ver com a sua conta bancária).

    Antes de mais nada quero deixar claro que não sou um romântico sobre esta questão. Pesquisas já nos mostraram a influência de fatores como dinheiro e infra estrutura na geração de bem estar. O ponto aqui é outro. A simples posse desses elementos não produz o efeito de aumento de auto estima ou bem estar. Se isso fosse verdadeiro, nenhuma pessoa de países de primeiro mundo e com dinheiro poderia sentir depressão, mas isso é o oposto da verdade.

    O fato é que conquistar coisas nos é importante não pelas coisas em si, mas sim, pelo sentimento de auto competência que promove em nós. Porém, hoje em dia é muito fácil de, logo após uma grande conquista, a pessoa olhar para o lado (ou para o instagram) e ver outras pessoas com outras conquistas e desqualificar a sua. Assim sendo ela obtém algo, mas não se preenche, não se satisfaz. A cultura piora isso ao nos dizer que “não podemos estagnar” e “temos que crescer sempre”, o que aumenta a sensação de que precisamos fazer “mais” e que aquilo que fizemos já não nos serve de nada.

    Porém, isso apenas é deletério no sentido de não nos permitir gerar este sentimento de auto competência. Aquela sensação de “eu consigo dar conta da minha vida’, não por um achismo, mas sim, pelos fatos da vida. O que isso tudo tem a ver com poder se dizer: eu me amo? Este sentimento de competência pessoal assim como o auto respeito são partes da auto estima. Assim sendo, se não me é possível sentir isso, também prejudico a minha auto estima.

    Não se trata, também, de contentar-se com pouco. É importante que a pessoa reconheça o que precisa e do quanto precisa para sentir-se realmente bem consigo. Porém isso tudo só é importante na medida em que a ajuda a alcançar este sentimento de competência, que traz consigo uma sensação de saciedade. Daí a coragem. Em um mundo sem limites dizer “estou satisfeito” é um ato de coragem. E este ato também significa que você consegue olhar para si e para o que realmente precisa.

    Saciedade é um sentimento que só a pessoa pode ser capaz de sentir. Quando comemos cada um come o quanto precisa para sentir-se saciado, dizer isso é um ato de coragem: agora não preciso de mais. Ao dizemos que não precisamos de “mais”, desfrutamos aquilo que é. Saímos do tempo futuro e voltamos ao presente. Então o afeto é possível, então o amor por si é possível. E neste contexto é que posso dizer: eu me amo.

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