• 29 de junho de 2020

Identidade

– Porque eu faço isso comigo?

– Você sabe o porque.

– Não sei não. Eu não quero ter este tipo de atitude, mas daí, vou lá e acabo fazendo.

– Muito bem. O que você pensa sobre você: é uma pessoa de sucesso ou não?

– Não… não acho que sou uma “pessoa de sucesso”, acho meio arrogante isso.

– E como você deseja crescer na sua profissão sem ter sucesso? É difícil ter sucesso sem ter sucesso. Paradoxal, não?

– Você tá me dizendo que isso que eu penso de mim afeta o meu trabalho?

– Lhe parece algo estranho de pensar? Toda vez que você começa a crescer, logo “se sabota”.

– Não, não é estranho.

– Pense: em algum momento durante estes crescimentos você pensou em algo como: “não mereço”, “tomara que eu não fique me achando demais”, “melhor não ficar cantando vantagem”?

– Sim.

Muitas pessoas dizem que estão se “auto sabotando”, porém, nem sempre isso é verdadeiro. O problema é que consideramos apenas aquilo que “queremos”, mas não aquilo que somos ou acreditamos ser. Nossa auto imagem, por mais perniciosa que seja para nós, procura sempre se concretizar e, por este motivo sentimos que “nos sabotamos”.

É difícil acreditar que temos atitudes que jogam contra nós mesmos. Porém isso se mostra verdadeiro e muito mais comum do que se pensa. O fato, como já havia colocado antes, é que temos uma discrepância entre aquilo que queremos conscientemente e quem, de fato, somos. Esta discrepância nem sempre é consciente e por este motivo causa tantos problemas. Porém, mesmo sendo inconsciente, ela ainda se mostra ativa e capaz de causar muitos problemas.

Um exemplo típico é a pessoa que se sente feia e começa a fazer atividade física, plástica e mudanças alimentares, além de um guarda roupa novo para “sentir-se bonita”. O que geralmente ocorre é que ela “quer” sentir-se bonita, mas “sabe que é” feia. Aqui está a discrepância. Em sua auto imagem, ela vê uma pessoa feia, mas deseja ser bonita. Em geral, por mais bela que a pessoa se torne (ou já seja) ela não consegue “sentir” isso. E não estou falando de um grave transtorno de imagem corporal, falo da experiência de milhões de pessoas comuns.

Esta discrepância se aplica a vários aspectos da vida. Auto confiança, vida financeira, ser ou não um bom profissional, ser sociável e até mesmo ser amado. A auto imagem é que sempre busca se concretizar. Se creio que não sou amado, esta é a minha verdade por mais que eu faça mil e um cursos sobre “como influenciar pessoas e fazer amigos”, por mais que eu seja verdadeiramente amado por alguém, me sentirei, no fundo, sempre alguém que não o é. Posso disfarçar, mas, no fundo, sempre será esta a minha verdade.

Assim sendo, o grande desafio não é lutar contra a auto imagem, mas sim, aceitá-la e olhar para ela. Quando nos permitimos olhar para quem somos tal como somos é que podemos verdadeiramente realizar mudanças. Modificar nossa maneira de ver quem somos não é uma tarefa simples e exige muita humildade, tanto para nos ver como somos, tanto para mudar nossa percepção pequena de nós mesmos. Quando fazemos isso conseguimos entender o que nos leva à “auto sabotagem”, no fundo, apenas uma forma da nossa auto imagem “se defender”.

O ato de coragem é acolher nosso desejo e nossa auto imagem. No momento em que se torna possível não lutar contra elas, é possível, também, conciliar aquilo que fomos com aquilo que desejamos nos tornar de uma maneira leve e  harmônica. É um fato pouco divulgado, mas mudar é mais um ato de saber como tornar algo que ainda não existe possível dentro de nossas vidas. Isso envolve mais um ato de abertura e humildade do que um de desafio e ataque. Não lidamos com um inimigo quando se trata de nós mesmos, mas, sim, de nos tornarmos ainda maiores do que pensamos que somos.

Abraço

Comentários
Cadastre-se e receba conteúdos exclusivos no seu e-mail: