• 1 de julho de 2020

Minhas emoções podem estar erradas?

– Mas e daí, o que eu faço? Agora eu tenho que ver se minha emoção está certa ou errada?

– Sua emoção está certa. O ponto é: o que faz você sentir-se assim?

– Ele ter me dito aquilo tudo!

– Não. Não é bem isso. Ele falou tudo aquilo e que foi que você pensou quando ele disse aquilo?

– Que ele é um idiota.

– Também não, isso veio logo depois. O que você pensou que ele queria quando te disse aquilo?

– Que ele queria que eu fosse embora.

– E era isso de fato?

– Foi o que eu senti!

– Não, foi o que você pensou, o que você sentiu veio depois.

– Você está me dizendo que minha emoção está errada?

 

Casos como esse são muito comuns em consultório. Para responder a pergunta do post: “minhas emoções estão erradas” é importante, antes, conhecer um pouco mais sobre o funcionamento da emoção e como sentimos nossas emoções e crenças. Vamos começar?

É importante entender que as emoções possuem uma função em nosso organismo, elas no movem para agir. Cada emoção possui um tipo de “temática”, por exemplo, quando ocorre uma perda tendemos a sentir tristeza, quando alguém ou algo nos impede de alcançar o que desejamos, sentimos raiva. Obviamente cada cultura aprende a associar estas temáticas gerais à elementos específicos assim como cada pessoa. Existe, então uma associação grande entre as emoções e aquilo que pensamos sobre o mundo, as pessoas e nós mesmos.

Desta forma, é correto afirmar que a maneira pela qual percebemos o mundo afeta diretamente os sentimentos que temos em relação à ele, as pessoas e ao que nos acontece. Dentro desta perspectiva, também é correto afirmar que as emoções estão “sempre certas”, ou seja, elas são reações adequadas diante da forma pela qual vemos o que nos aconteceu. No caso acima, por exemplo, a pessoa entendeu que o outro estava lhe dizendo “vá embora”, diante desta interpretação a emoção da raiva está certa, ou seja, quando alguém que nos ama, nos manda embora sem motivos, é “adequado” sentir raiva.

O fato, porém é aprender a verificar se a interpretação que fizemos está adequada. Embora a emoção que advém da interpretação seja “certa” porque depende da interpretação, esta pode não ser precisa. No caso acima, por exemplo, não havia nenhuma evidência de que o namorado da pessoa quisesse que ela fosse embora. Ele estava, de fato, dando limites à ela. Estes limites foram interpretados como “quero que você vá embora” e por isso ela sentiu raiva dele. Neste caso não é a emoção que está errada, mas sim a interpretação.

Ocorre que todos nós temos crenças sobre o mundo, como ele deveria funcionar, o que as pessoas deveriam ou não fazer, quem somos nós e como gostaríamos de ser tratados, enfim, sobre praticamente tudo o que organiza nossa vida. Com isso, é evidente que teremos distorções, omissões e generalizações que nos farão perceber as situações de uma maneira ou de outra. Perceber isso é importante, porque nos ajuda a criar uma crença útil: “nós, seres humanos, vamos distorcer a realidade”. Precisamos disso para sobreviver, e nem sempre isso é “ruim”, pelo contrário.

Com isto em mente, podemos nos perguntar sobre como percebemos o mundo. Ao prestar atenção nas regras que criamos, podemos compreender melhor o que nos faz sentir tristeza, medo, raiva e outras emoções. Então podemos fazer a pergunta mais importante: quando o meu jeito de ver o mundo pode estar errado? Em que situações esta minha percepção pode ser inadequada? É importantíssimo nos questionarmos isso afim de compreender os limites daquilo que julgamos o melhor para nós (e sim, tem limites). Com isso podemos aumentar a nossa forma de interpretar o que nos ocorre e aprender a vivenciar novas emoções.

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