• 13 de julho de 2020

Eu não pedi pra nascer!

– Akim, eu não pedi pra nascer entendeu?

– Claro que entendi. Nem eu.

– Não entendi.

– Ué, você acha que alguém aqui neste planeta “pediu” para nascer? Ou seja, acha que alguém encomendou um corpo para “se jogar dentro”?

– É, não… mas… não é esse o ponto.

– Esse foi o ponto que você colocou. “Não pedi para nascer”. Entendo, ninguém aqui fez isso, estamos todos no mesmo barco.

– Qual barco?

– Você sabe. A vida.

– Mas eu não gosto da minha!

– Ah, bem, isso é outro problema. O que, especificamente, você não gosta na sua vida?

 

Muitos já sentiram isso: “não queria ter nascido”, “não desejava estar aqui neste mundo”. O que queremos dizer com isso? Qual a verdadeira profundidade que está atrás desta frase? Em geral, olhamos para isso apenas como uma bravata de adolescentes, brabos com o mundo como é. Embora isso também seja verdade, o fato por detrás dessa frase pode ir muito mais além.

É certo dizer: eu não pedi para nascer. De fato o “eu”, ou seja, aquela imagem criada em nossa mente com a qual nos identificamos, não pediu para nascer. O “eu” simplesmente emerge dentro de um organismo que foi criado. A pergunta, então é: este organismo “pediu” para nascer? Acredito que não. Será que alguém pediu por isso? Neste post, não vou assumir um ponto de vista que pressupõe reencarnação, pois, dentro deste ponto, a resposta afirmativa é possível. Porém, acredito que olhar para o “nascimento” como uma questão que está além de nossa escolha, apenas torna a vida ainda mais bela.

Creio que ninguém pediu para nascer. Na verdade, a pessoa que somos emergiu junto com um organismo que se fez e está se fazendo a todo instante. Não creio que este organismo pediu para nascer, ele apenas seguiu seu fluxo, sua programação genética. A vida, por assim dizer, é compulsiva, ela busca continuar à qualquer custo. Então, quando alguém diz que não pediu para nascer, isso é um fato. A questão é: o que você quer fazer com a vida da qual o seu “eu” se dá conta?

Isso porque a “tarefa” do “eu”, não é de “querer” a vida ou não. Isso está além do seu alcance. Quando dizemos “eu não pedi para nascer”, na verdade estamos nos dando conta disso: a nossa impotência diante da “compulsão” da vida em criar mais vida. Isso é algo profundo. Perceber o quanto somos pequenos diante da vida e de sua imensa força em gerar mais vida. Isso é tão forte, que muitos suicidas em suas cartas, deixam expresso o desejo pela vida. Eles querem que o mundo seja um lugar melhor para aqueles que ficam, literalmente, dão sua vida em prol disso na crença de que ao sacrificar-se algo poderá mudar.

A questão é que enquanto lutamos contra a percepção da falta de controle queremos mandar na vida. Desejamos impôr as condições do pequeno eu à grande vida. Isso não funciona. Ao aceitar o fato de nossa impotência diante dos desígnios da vida, podemos olhar para a vida que habita nosso corpo. Tal como é. Essa é a parte mais difícil. Olhar tal como é e não tal como o “eu” gostaria que fosse. É como pensar em uma planta nascendo em meio às pedras, se ela pensar: “Ah, droga, nasci no lugar errado”, então está tudo acabado. O problema disso é que mesmo que o “eu” recuse a vida, ela continua atuando através dele.

A questão, portanto, não reside em definir o que a vida será, mas em buscar definir o que pode ser feito nesta vida que existe. Voltando ao suicídio, ele é, obviamente, uma decisão. O “eu” resolve acabar com a vida que o envolve. Esta é a decisão: eu mato essa vida. Não me cabe aqui avaliar isso. O que quero mostrar é que mesmo ali, o ponto recai sobre a decisão que o eu toma em relação à vida. O eu que deseja controlar a vida e submetê-la aos seus comandos, em geral, se relaciona mal com ela. Não vai gostar de ter nascido. Aquele que aceita os limites impostos consegue olhá-la com carinho e ser olhado da mesma forma.

Abraço

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