• 24 de julho de 2020

Eu posso te contar algo sobre meu filho?

– Que bom que você me recebeu aqui, eu precisava muito falar do meu filho para você.

– Sim, foi possível, ele concordou que você viesse aqui.

– O que? Você contou para ele? Como assim?

– Sim, afinal de contas ele é meu cliente, preciso manter esta relação de confiança com ele.

– Mas e agora? Ele sabe que eu vim aqui… e…

– Você tem algum problema com isso?

– Ele não podia saber!

– Porque ele não pode saber sobre isso?

– Eu… não sei… só… não sei!

 

A relação terapêutica, é, antes de mais nada, uma relação de confiança. O cliente permite ao terapeuta saber de sua vida pessoal, de seus sentimentos e pensamentos mais profundos. Quando alguém deseja inferir nesta relação – seja com a intenção que for – é necessário que a confiança seja, sempre, respeitada.

É algo muito comum que pais e filhos desejem interferir na terapia um do outro. O desejo de dizer ao terapeuta algo sobre a pessoa é, geralmente, um pedido de ajuda disfarçado ou uma forma de colocar na pessoa do terapeuta um problema da relação. É como se a pessoa dissesse: “não sei como reagir à estas características dele, então, por favor, fale com ele sobre isso”. Ora, este pedido não é o pedido do cliente e sim, de alguém de fora. Sendo que a relação terapêutica tem na confiança o seu valor máximo, como o terapeuta pode acatar o desejo de um terceiro sobre a relação com seu cliente?

Não pode. Este é ponto. Indo profundamente na questão e observando-a de um ponto de vista sistêmico, não apenas não pode como seria completamente contraprodutivo fazer isso. Se o terapeuta toma o ponto de vista de outro sobre seu próprio cliente, quem ele está tratando? Já é uma tarefa complexa lidar com o ponto de vista que a pessoa tem de si, quem dirá olhar para ela sob a ótica de um terceiro. A questão se aprofunda, porque, na verdade, quando alguém precisa falar sobre o outro está, na verdade, falando de si e da relação com este outro.

E então o que temos? Temos a apresentação de uma dinâmica familiar. O que a pessoa espera ao falar com o terapeuta do pai ou do filho é que o terapeuta escute sua demanda e a resolva. Porém o que é realmente “curativo”? É quando esta dinâmica se torna evidente à todos na relação. Se isso não vem à tona, temos um segredo. Segredos atrapalham a vida da família ao invés de ajudar. É apenas quando os  envolvidos podem se olhar nos olhos que algo pode ser feito. Desejar usar os olhos do terapeuta para olhar para alguém não funciona.

É comum se ouvir a pessoa que deseja falar sobre outra. Não para tomar suas dores e resolver o problema, mas sim, para posicioná-la dentro da relação com a pessoa de quem reclama. Foi como disse: quem vem falar sobre o filho/esposa/pai está falando de si mesmo e da relação. Assim o pedido desta pessoa pode ser ouvido: como o seu pedido pessoal. Isso deve ir para a relação entre ambos, tendo o terapeuta, no máximo, como ponto e nunca como mediador ou responsável pela resolução da situação. É a relação quem vai resolver-se e não terapeuta que resolverá isso à ambos.

Com isso nos colocamos diante da experiência da relações. Não é algo fácil se relacionar, e ao mesmo tempo é. Tudo começa quando olhamos nos olhos. Este é o primeiro contato com a alma de outra pessoa. O toma da voz e o toque da pele seguem. O sentimento surge. Então temos algo acontecendo. Isso é importante mesmo que seja doloroso. E apenas dentro dessa situação, onde os sentimentos se movem é que algo de “curativo” pode acontecer. Assim sendo, quando trocamos segredos ou reclamações com os outros, precisamos saber que isso pode auxiliar, mas nunca resolver.

Abraço

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