• 17 de agosto de 2020

    Terapia não é sobre “não sentir”

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    – E porque eu iria querer sentir isso?

    – Bem, qual tem sido os ganho em tentar não sentir?

    – É… eu não consigo…

    – Sim e sua tendência tem sido evitar lugares que você gosta de ir para não ver seu ex e não sentir-se mal.

    – Sim.

    – Agora, ao sentir, é claro que terá a parte dolorosa da experiência, porém o que pode vir de bom disso?

    – Se eu sentir a perda de verdade?

    – Sim.

    – Bem, talvez eu “perca” ele mesmo né?

    – Precisamente.

     

    Muitas pessoas procuram terapia com o intuito de deixar de sentir alguma emoção. A função da terapia não é abolir as emoções da vida das pessoas, pelo contrário, sua função é de ajudar a pessoa a se fortalecer para conseguir viver a maior riqueza possível de emoções. Agora, porque a terapia se coloca esta meta?

    Em primeiro lugar é importante compreender que as emoções são uma ferramenta evolutiva. Os animais sentem emoções e o ser humano continuou com isso em se repertório. Assim sendo, sentir emoções é algo que ajuda na sobrevivência. Temos muitas emoções porque o mundo e a sociedade nos oferece muitas situações diante das quais precisamos agir. A emoção é o meio mais rápido e eficiente que temos para determinar uma reposta e agir.

    Podemos compreender as emoções, então, como um alarme que nos sinaliza que algo está ocorrendo conosco ou no mundo ao nosso redor. Costuma-se entender que as emoções são, de certa forma, temáticas, ou seja, cada emoção aparece diante de um tipo de situação. A tristeza diante de perdas, raiva diante de impedimentos, medo diante de situações potencialmente perigosas. As ações que se seguem diante das emoções nos ajudam a lidar com estas situações. Ao conseguirmos sentir o maior número possível de emoções, podemos, também perceber ao que reagimos e perceber melhor o mundo ao nosso redor.

    Mas não é só nisso que sentir as emoções nos ajuda. Todos nós aprendemos algo sobre as emoções ao longo da vida. De acordo com o que nossa família nos ensinou e com aquilo que passamos a acreditar, damos certos valores e adquirimos certas crenças diante do mundo emocional. Essas crenças podem nos ser úteis ou atrapalhar nossas vidas. Aqui, inclusive, reside um tema importante: não são as emoções que nos atrapalham, mas sim respostas inadequadas que damos diante delas. Ao olhar os aprendizados que criamos sobre as emoções podemos determinar se as respostas são úteis ou não e, então, mudar isso.

    Então, se a pessoa se permite sentir mais, ela consegue perceber melhor o mundo ao ser redor, ter um leque maior de comportamentos para lidar com suas emoções e ainda organizar sua história passada de maneira mais prática e funcional. Como se não bastasse, ao fazer todo este trabalho, a pessoa também aprende a regular melhor suas emoções diante do que o futuro lhe reserva. A regulação emocional não visa suprimir emoções, mas sim “surfá-las” com maestria para ter uma experiência mais rica com elas.

    E então passamos a sentir que todas as emoções nos trazem algo importante, mesmo que sejam dolorosas. Mais de um cliente já me disse: “agora sinto-me bem em ficar triste”, “aprendi a gostar de minha raiva”, “hoje tenho muito respeito pelo meu medo, ele me protege”. Quando retiramos os vários mitos que temos diante das emoções e as vemos como partes funcionais de nossa evolução, conseguimos usar este lindo e poderoso arsenal à nosso favor. Hoje, tenho enquanto máxima que este é o mais profundo auto conhecimento que podemos desenvolver.

    Abraço

     

     

     

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