• 26 de agosto de 2020

    Perder aquilo que eu nunca tive

    – Não sei… deu um branco agora.

    – Isso, preste atenção à esse branco. O que será que este branco está impedindo você de ver?

    – Não sei direito… sinto uma angústia só.

    – Perfeito… perceba essa sensação. O que ela te faz desejar fazer?

    – Eu sinto que… é como se eu quisesse segurar algo.

    – Feche suas mãos, como se estivesse segurando algo. Sinta esse movimento e perceba se algo surge em sua mente.

    – Meus pais… meu pai…

    – Perfeito… fique com a imagem dele…

    – Não queria que tudo tivesse sido como foi… queria outra coisa…

    – Perfeito, mantenha essa sensação e perceba como suas mãos seguram isso…

     

    Seres humanos são peritos em criar situações em suas mentes. Projetamos como as coisas deveriam ser e nos empenhamos em atingir essa meta. Esta capacidade, de um lado, nos lançou em direção à muitas conquistas, mas de outro pode nos causar sofrimento desnecessário. Como saber diferenciar?

    A habilidade de representar a realidade em nossas mentes é muito importante. Através disso e da relação que mantemos com aquilo que representamos conseguimos refletir, criar, fantasiar e todas essas capacidades nos fazem operar melhor no mundo. Além disso, conseguimos projetar realidades, ou seja, além de representarmos o real, conseguimos imaginá-lo no futuro. Esta capacidade nos faz ter planos e metas. É com isso que, por exemplo, aprendemos a estocar comida durante o verão para aproveitá-la no inverno, ou economizar para comprar algo com um preço mais barato.

    Porém, muitas vezes, criamos realidades que, embora sejam belas em nossa mente, não são capazes de se tornarem reais. Essa desilusão é tão pesarosa que muitas pessoas não aceitam sua improbabilidade e se mantém fixadas nelas durante anos e até por toda a vida. A dificuldade não está em perceber a ilusão, a maior parte das pessoas a reconhecem: “eu sei que é quase impossível, mas…”. Este “mas” as mantém na ilusão. O real problema é o que acontece com a pessoa se ela abrir mão da ilusão, esta é a pergunta que evidencia a maneira pela qual o mecanismo de ficar preso à ilusão se dá.

    Um exemplo típico é quando a pessoa busca uma melhora na vida dos pais ou de um dos pais. A ilusão sempre se cria em um momento do passado, quando a pessoa era mais imatura do que é hoje, assim sendo, é importante pensar em que momento isso se formou. Em que momento, acreditei que eu poderia mudar o destino dos meus pais, o que me fez pensar que isso era possível e o que tentei fazer para tornar isso realidade são perguntas importantes.

    Então a pessoa quer esta melhora e se coloca como responsável por isso. Com isso, toda vez que vê seus pais mal ela sente culpa e atribui-se ainda mais carga. Afinal de contas ela é a responsável pela felicidade deles não é? Se uma pessoa com esta dinâmica trabalhar com a desilusão, irá se deparar com a culpa. Este sentimento de culpa, no entanto, também é secundário, diante da tristeza que sente em ver os pais tal como são fazendo as escolhas que fazem. Assim, além de se proteger da culpa a pessoa quer se proteger desta tristeza (e em alguns casos de sentir-se abandonada e/ou negligenciada pelos pais).

    Então, a dificuldade reside em abrir mão da ilusão, de uma realidade que nunca se concretizou. Isso é difícil pelo fato de que a ilusão é uma forma de defesa contra as duras emoções que pessoa sentiu diante do momento no qual formou a ilusão. Abrir mão desta ilusão envolve entrar em contato com estas emoções e conseguir associá-las à situação na qual a ilusão se formou. Dar conta de possíveis pendências emocionais e auto juízos que a pessoa fez de si afim de se criar uma nova relação com quem ela e seus pais foram no passado e quem são hoje no presente.

    Abraço

     

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